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Domingo, 19 de Novembro de 2017

O PROPÓSITO DE UMA MENTE AFIADA

SYLVIA BRASIL COUTINHO É ADEPTA DO INTELLECTUAL APPEAL. NOS TEMPOS EM QUE ERA UMA EXÍMIA TENISTA, SENTIA FALTA DO DESAFIO MENTAL. ENGENHEIRA AGRÔNOMA PELA ESALQ-USP E COM MBA PELA UNIVERSIDADE DE COLUMBIA, EM NOVA YORK, ELA É CEO DO BANCO  INTERNACIONAL UBS NO BRASIL DESDE 2013. AVESSA A HIERARQUIAS BUROCRÁTICAS, SUA GESTÃO FOCA NA FLUIDEZ DE INFORMAÇÃO E NA INCLUSÃO DAS PESSOAS NO PROCESSO.

A bicicleta era o meio de transporte de Sylvia Brasil Coutinho para circular entre a república de estudantes e o campus da Esalq-USP, em Piracicaba, no interior de São Paulo. Com mais de cinco mil espécies de árvores, a universidade é uma das mais bonitas da América Latina. “É um parque botânico. Faz bem à alma”, diz Sylvia, formada em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo.

Apaixonada por natureza desde pequena, quando passava os fins de semana na horta de um hospital beneficente fundado pela congregação da qual a tia fazia parte, ela estranhou o convite para virar trainee do Citibank. “Consegue me imaginar trabalhando sob luz de néon?”, dizia a carta que Sylvia escreveu para o marido na metade dos anos 1980. “Eu não me vejo trabalhando em um escritório, mas vou lá ver a proposta”, concluía o recado enviado para Bananal, no extremo leste paulista, onde o marido, também engenheiro agrônomo, morava temporariamente para tentar reerguer a fazenda da família.

“Desde cedo decidi que queria ser engenheira agrônoma”, diz Sylvia, durante nossa conversa na sala de reunião do escritório do banco suíço UBS, na movimentada avenida Faria Lima, em São Paulo. “Eu adorava engenharia e matemática, ao mesmo tempo em que sou ambientalista de coração. A faculdade juntou esses dois lados.” O currículo da Esalq a agradava por ter um pouco de tudo: de construção, eletrificação e gênese de solos a genética, biologia e economia.

Sylvia brilhou em economia, fez todas as optativas e ganhou até prêmio na área. “Por isso o professor Paulo Cidade [especialista em economia e política agrária, que morreu no final de 2016] me convidou para fazer o mestrado em economia agrícola. Mas, quando estava chegando a hora de escrever a tese, um dos professores me indicou para o programa de trainee do Citibank”, lembra Sylvia. “Naquela época, o setor agrícola não tinha a pujança de hoje. Estava meio quebrado. Minhas opções eram fazer pesquisa ou vender adubo.”

A proposta do Citibank chegou na hora em que a paulistana já considerava deixar de viver em república – “tinha muita festa legal, o povo era unido, mas eu estava louca para começar a trabalhar”, diz. Em 1984, ela entrou para o time do Citibank, subindo na carreira ao longo dos 17 anos seguintes. “Era o banco onde todo mundo queria trabalhar”, diz. “Meu background internacional me ajudou. Eu falava francês, italiano, inglês e um pouco de espanhol. Sempre fui motivada a continuar aprendendo.”

Filha de estrangeiros, Sylvia estudou no Liceu Pasteur, em São Paulo, desde o jardim de infância. A mãe nasceu no Egito e o avô era juiz da colônia francesa no Cairo e do rabinato, até serem expulsos pela política do então presidente Gamal Abdel Nasser – ao nacionalizar o Canal de Suez, ele começou uma guerra contra França, Inglaterra e Israel e mandou os estrangeiros embora.

Já o pai emigrou de Portugal para fugir da política autoritária do estadista António Salazar. “O pós-guerra na Europa era complicado. Os dois perderam tudo, começaram do zero e se conheceram aqui”, conta a filha mais velha do casal, dizendo que sempre foi meio “gringa” e recebeu o nome de Sylvia Brasil como uma homenagem ao país.

Enquanto o pai dava consultoria para futuros empreendedores e presidia instituições beneficentes, a mãe gerenciava sua própria escola de idiomas, chamada By Telephone. “Isso foi há 30 anos. Ela foi precursora no ensino remoto, dando aulas de inglês, francês e espanhol por telefone”, conta. “A empresa ainda está ativa, e minha mãe trabalha até hoje, com 80 anos”, comenta Sylvia com orgulho e, em tom de brincadeira, se questionando se também deveria ter aberto seu próprio negócio.

Depois de dez anos à frente do Citibank e com passagens por diferentes áreas, a engenheira foi escolhida para representar a América Latina em um projeto de tecnologia do banco em Los Angeles, na Califórnia, ao lado do CEO mundial da época, John Reed. “Eu já tinha dois filhos. Esse foi um momento chave na minha carreira”, afirma. “Acho que esse é um dos dramas das mulheres. Ter mobilidade é fundamental, principalmente em multinacionais. Meu marido trabalhava no Unibanco e tinha sido promovido há pouco tempo, mas ele imediatamente falou: ‘vamos embora’.”

No início dos anos 1990, o CEO mundial do Citibank já vislumbrava que a tecnologia transformaria a maneira como os bancos distribuíam seus serviços. Sylvia gerenciava uma equipe de engenheiros do mundo inteiro – todos focados na criação do “banco do futuro”. “Minha proposta era fazer pequenas agências, com abertura de conta e outros serviços por videoconferência. Era algo bastante inovador para a época e foi até patenteado com meu nome”, conta a paulistana, que se desligou do projeto após a compra do Citibank pelo Travelers Group. “O John saiu e voltaram à idade da pedra, insistindo na ideia de agência física”, lembra.

Da Califórnia, Sylvia foi chamada para trabalhar em Nova York, ainda no Citibank, assumindo a área de distribuição alternativa de serviços financeiros, que incluía internet banking e smart cards. A família acompanhou a mudança mais uma vez, em 1998. “Eu já estava mordida pelo vírus da tecnologia”, lembra. “Comecei a me interessar muito pela disrupção. Se antes os modelos de negócios ficavam iguais por anos, agora tudo pode virar um castelo de cartas muito rapidamente”, diz a executiva, defendendo menos hierarquia e mais agilidade nas decisões das empresas.

Mas as quase dez horas de voo que a separavam do Brasil pesavam. “Minha ideia sempre foi voltar, ajudar, fazer alguma coisa pelo meu país”, afirma Sylvia. “Eu também queria que meus filhos estudassem e fizessem amigos aqui.” A estratégia adotada foi aceitar uma posição no HSBC dos Estados Unidos em 2005 e, de lá, ser transferida para o Brasil. “Fui a primeira diretora executiva no board do HSBC”, conta. “Foi um período muito legal, com muita autonomia. Eu cuidava de custódia, asset management e gestão de patrimônio.”

Depois de estruturar a área na América Latina, o que representava cerca de US$ 60 bilhões, ela recebeu o convite para assumir como CEO de asset management para as Américas e mercados emergentes. E isso significava voltar para Nova York. “Mudei de novo para lá, mas deixei meus filhos aqui. Meu marido ficou indo e vindo. O Skype sempre me salvou a vida”, brinca Sylvia, contando que, no dia em que conheceu um dos fundadores do Skype, foi logo abraçando e agradecendo pela invenção.

Foram mais dois anos e alguns meses, com viagens longas e frequentes para países como China e Turquia. Até o dia em que o banco passou por uma reestruturação e Sylvia voltou a assumir a América Latina, para as áreas de varejo, seguros, asset management e wealth management, com mais de 30 mil colaboradores. Para isso, sua nova casa seria o México. “Mas aí eu falei: ‘olha, México não. Nada contra, mas é complicado mudar com família e tudo”, lembra. “Minha condição foi montar a regional no Brasil.”

Na primeira reunião com os líderes de cada país que reportavam para Sylvia, 40 homens sentaram ao redor da mesa. “Não tinha nenhuma mulher na região. Era eu e 40 homens”, diz. Mas ela afirma nunca ter sentido preconceito – ou pelo menos não considera a questão. “O cara pode estar pensando, mas eu não vejo diferença entre ser homem ou mulher. Tive a sorte de ter um pai nada machista, que discutia negócios comigo, mais até do que com meu irmão. Nas minhas palestras sobre empoderamento feminino, sempre falo que o pai precisa começar a tratar a filha mulher igual trata o filho homem.”

Na hora de comandar uma empresa, Sylvia aposta no intellectual appeal, como ela mesma diz. “Pela minha experiência, acho que você se impõe pelo intelecto”, afirma. “Sempre procurei não chamar a atenção fisicamente. Não dou muita bola, sou meio moleca, não sou ‘emperequetada’. No final do jogo, você acaba se impondo pelas ideias, e é respeitada por isso”, observa a paulistana, que desde a infância conviveu bem entre meninos e disputava de igual para igual nas partidas de tênis.

Ela poderia facilmente ter seguido a carreira de tenista – ou até outro esporte. Durante os anos de colégio, treinava três horas por dia, se dividindo também entre futebol, natação e squash. “Mas eu precisava de mais desafio intelectual”, diz Sylvia. Essa constante busca por  desenvolver o raciocínio lógico e analítico abriu muitas portas, e também ajudou a identificar o momento certo de deixar o HSBC e o comando da operação na América Latina. “Apareceram outros convites antes do UBS, mas eu disse ‘não’. Tinha gente mudando de país para trabalhar comigo e não achei que seria correto.”

Em 2013, com a operação e o time redondos, a paulistana deu o passo seguinte – e acabou com a angústia de viajar mais do que aeromoça, como ela compara. “Sylvia B. Coutinho se tornará a primeira mulher a ser CEO das operações brasileiras de um banco internacional”, dizia o comunicado do UBS divulgado para o mercado. Após anos com a mala sempre pronta para a próxima viagem, ela agora está totalmente focada no Brasil. “Gosto do desafio de pegar na mão e reconstruir algo, fazer crescer”, diz a executiva sobre o momento que assumiu após a volta da operação do UBS no país.

O banco suíço é líder mundial em private banking e forte na área de investment banking. No Brasil, o setor soma R$ 593 bilhões em ativos, segundo o relatório da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais) de julho de 2017 – e o UBS tem US$ 2,76 bilhões sob sua gestão. A empresa também investe em outras áreas, como mercado de capitais, fusões e aquisições, IPOS e impact investment. “São áreas que sempre gostei, mas não estava focada diretamente até então”, comenta Sylvia. “Minha mudança juntou uma ansiedade pessoal e profissional de fazer coisas diferentes, estar mais focada na área de investment banking e ter mais agenda no Brasil.”

Desde então, ela se envolve em vários projetos paralelos para fomentar o debate sobre temas como infraestrutura, agronegócio, green finance, meio ambiente e educação. “Tive o privilégio de ser convidada para participar da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura do Grupo Estratégico (GE), que junta todo mundo do meio ambiente e dos setores produtivos e do agronegócio”, diz Sylvia, a única representante do setor financeiro.

“Temos que criar maneiras de monetizar nossos ativos ambientais, especialmente trazendo recursos de fora para manter a floresta em pé”, comenta a executiva, que também participa do conselho de empresários do Instituto Ayrton Senna, da Brazil Foundation e do Conselho de Administração Global da multinacional francesa Edenred, sediada em Paris. “Não adianta reclamar e não se envolver”, diz a CEO, comparando a postura com as reuniões de condomínio. “Só lota quando é para distribuir garagem. Tirando isso, todo mundo reclama, mas ninguém vai lá tentar ajudar ou colocar a mão na massa.”

Sylvia já vê um novo perfil surgindo entre os mais jovens, que se preocupam mais com o meio ambiente e com o propósito por trás do que realizam. “Me identifico com esses valores. A única parte que me identifico menos é que sou de uma geração mais resiliente e dada ao sacrifício pessoal”, diz a paulistana, que ainda pretende acompanhar – e fazer acontecer – muitas mudanças. “Eu sou como a minha mãe”, garante Sylvia. “Se deixar, trabalho até os 80 anos.”

Camila Balthazar
Camila Balthazar
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