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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

DESCOBERTAS À VISTA

PORTUGAL É O PAÍS DA VEZ. DEPOIS DE OS “TUGAS” VIREM PARA O BRASIL NOS TEMPOS DAS CARAVELAS, CHEGOU A HORA DE OS BRASILEIROS DESCOBRIREM AS TERRAS ALÉM-MAR. “É BRUTAL!”, COMO DIZ A MELHOR GÍRIA PORTUGUESA PARA SE REFERIR A COISAS INCRÍVEIS, ESPETACULARES.

Do alto do Miradouro da Graça, um dos tantos bons mirantes lisboetas espalhados pela cidade das sete colinas, dá para ver a (quase) sempre presente Ponte 25 de Abril sobre o Rio Tejo e o Castelo de São Jorge, com a bandeira portuguesa flamulando. Já é fim de tarde, restam poucas mesas livres no bar da esplanada – como se chamam os convidativos terraços em Portugal – e uma dupla de cantores de rua toca músicas perfeitas para o entardecer, sentada em frente a um imponente mosteiro agostiniano de 1271.

Entre uma taça de vinho e outra, ouço as histórias da cidade sob o ponto de vista do brasileiro e mestrando Levi Olivares, que mora em Lisboa há quase cinco anos. E é apenas nesse momento que descubro a catástrofe que acometeu a cidade no fatídico ano de 1755. “Teve um terremoto na manhã do Dia de Todos os Santos, 1º de novembro, que desabou o teto do Convento do Carmo, onde muitos fiéis rezavam”, conta Levi. “Isso gerou um questionamento sobre Deus. O tremor também provocou incêndios e todos começaram a descer da parte alta da cidade em direção ao Terreiro do Paço, na beira do rio. Aí veio um tsunami e arrastou todo mundo”, descreve ele, me levando para ver as ruínas do convento depois.

Foi o pior e maior terremoto da Europa até hoje, destruindo grande parte da cidade, ao que o então ministro Marquês de Pombal reagiu com a frase: “enterrem-se os mortos e cuidem dos vivos.” O rei D. José I fugiu do palácio cheio de medos e foi viver em tendas de veludo para o resto da vida, enquanto Pombal assumiu a reconstrução da cidade, dando a origem à arquitetura de edifícios baixos e ruas largas, batizada de “pombalina”. Foi também ele quem transformou a Praça do Comércio, ou Terreiro do Paço, na entrada mais nobre da cidade, com degraus de mármore no Cais das Colunas desembocando no Tejo.

O museu interativo Lisboa Story Centre fica nessas redondezas, em um dos prédios amarelos que rodeiam a praça, onde se pode conhecer toda a história portuguesa passando pelo início com os fenícios, pelas muralhas romanas, pelos azulejos herdados dos mouros, até chegar aos dias de hoje. Do lado de fora, o burburinho da Praça do Comércio, principal ponto turístico da capital, vai do triunfal Arco da Rua Augusta aos vários restaurantes com mesas ao livre, entre os quais o RIB, já do outro lado da calçada, inaugurado há pouco tempo na histórica Pousada de Lisboa.

O passado das ruas labirínticas com arquitetura medieval de antes do terremoto ainda faz parte da cena do bairro Alfama, um dos mais “bué da fixe” de Lisboa – para gastar mais uma gíria aprendida com os portugas, que significa “muito legal”. Ruas de pedra, roupas penduradas em varais improvisados nas fachadas dos prédios, minúsculas casas de fado e tascas autênticas se espalham pelas ladeiras. É nesse bairro antigo que ficam outras duas vistas imperdíveis: a do Castelo de São Jorge – fortaleza moura construída no século 11 no alto de uma das colinas – e a do Miradouro Santa Luzia.

“Tão pá, bora ali beber uma ginjinha?”, pergunta de repente Levi, ao passar em frente a uma porta com os dizeres “Medrosa D’Alfama”. Andanças pelo centro sempre vêm acompanhadas de uma rápida parada para uma dose de ginja, bebida licorosa que vem de uma fruta parecidíssima com a cereja. E o atendente do pequeno estabelecimento – quanto menor, melhor – pergunta: “com elas ou sem elas?”, se referindo à presença da ginja no fundo do copo. A cena se repete por outros lados, sendo que a mais tradicional e preferida dos lisboetas é a “Ginjinha Sem Rival-Eduardino”, que resiste às mudanças no seu entorno e mantém sua pequena porta aberta há mais de um século.

A paisagem da cidade mudou muito nos últimos anos. Enquanto uns se rebelam com o que dizem estar virando uma “fantasia para turistas” – e Levi não perde a oportunidade de mostrar exemplos da gentrificação que inflaciona o mercado imobiliário e expulsa os antigos moradores dos bairros históricos –, outros comemoram as consecutivas declarações de amor. É título atrás de título, colocando a capital no centro das atenções. Em 2017, a CNN elegeu Lisboa como a cidade mais cool da Europa, a premiação Wallpaper Design Awards a considerou a melhor do mundo e a União das Cidades a destacou como Capital da Cultura Ibero-Americana de 2017. É, de fato, o destino da vez, superando minhas mais altas expectativas.

A inauguração do MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) no ano passado resume essa efervescência. À beira do Tejo e ocupando dois edifícios – a antiga estação termoelétrica com ares industriais e um arrojado projeto arquitetônico curvilíneo com mosaicos de cerâmica prateada, refletindo a água do rio –, o museu dá essa nova cara descolada a Lisboa. O interior também impressiona, com uma galeria ampla e oval logo na entrada, recebendo grandiosas instalações. Até 21 de agosto, fica em cartaz a “exposição-manifesto” Utopia/Distopia.

Há novidades por todos os cantos. A antes decadente zona portuária virou o moderno Parque das Nações após se revitalizar para receber a Expo’98, a Praça do Comércio ganhou um largo calçadão chamado Cais Sodré (lê-se “Caixôdré”, em português de  Portugal) – com bares e restaurantes ao ar livre à beira do rio –, o Mercado da Ribeira se transformou em Time Out Market, um mercadão “gourmetizado” com quiosques de chefs renomados, e o Palácio do Chiado é ponto de encontro da boa gastronomia há pouco mais de um ano, em um antigo casarão do século 18.

Mas o charme europeu segue lá, com a fotogênica Rua da Bica, considerada uma das mais bonitas do mundo, e os bondinhos trafegando lentamente. Outros clássicos de Lisboa concentram-se a oeste, mais afastados da região central, como a dupla Mosteiro dos Jerônimos e Torre de Belém, construída nos anos 1500. Ali do lado está o famoso pastel de nata, vendido com o nome Pastel de Belém somente nesse bairro, formando fila em frente à antiga confeitaria de 1837. “Mas português não pega fila para comprar pastel de nada, né?”, brinca Levi, ainda assim me encorajando a ter a experiência turística.

RUMO AO DOURO
Segui viagem para o noroeste de Portugal, em um percurso de três horas de carro a partir de Lisboa, até encontrar o majestoso Rio Douro beirando o Porto. O Douro percorre 900 quilômetros entre o Porto e Sória, já na Espanha, em suaves curvas cortando um vale montanhoso cinematográfico. A ponte (quase) sempre presente nesta cidade é a D. Luís I, com sua estrutura metálica feita por um dos sócios do francês  Gustave Eiffel, conectando o Porto a Vila Nova de Gaia, onde enfileiram-se conceituadas casas do docinho vinho do Porto.

Aos pés do rio, a Zona da Ribeira é um vai e vem de barquinhos coloridos e pessoas no calçadão cheio de restaurantes e bares. A cidade é daquelas estilo “amor à primeira vista”, com ruas medievais, muralhas e prédios com fachadas de granito e azulejos por todos os lados. Premiada três vezes pelo “Best Destinations Awards”, até mesmo o McDonald’s do centro histórico é lindo, ocupando o espaço do antigo Café Imperial de 1932. Decoração art déco, vitrais coloridos e lustres luxuosos ornamentam o interior e quase valorizam os lanches fast food.

A uma curta e bela caminhada do McDonald’s está a centenária Livraria Lello, com a famosa escadaria vermelha e os mais de 12 mil livros dispostos em prateleiras de madeira que vão do chão ao teto. Dizem que JK Rowling se inspirou na livraria neogótica para escrever Harry Potter – e em tantos outros lugares de Porto, onde a escritora morou entre 1991 e 1993. Durante minha primeira visita à cidade, há dois anos, entrei na livraria e fui logo ouvindo um dos donos gritar: “Sem fotos, por favor!”. Parece que eles cansaram de brigar e aceitaram sua vocação turística. Agora há uma fila na porta e uma cobrança de 4 euros para visitar o local.

Caminhadas pelas suaves ladeiras do Porto – assim como Lisboa, o sobe e desce é uma constante – revelam a Torre do Clérigo e a vista panorâmica do alto de seus desafiadores 200 degraus e a Estação Ferroviária de São Bento, com o interior coberto por desenhos em painéis de azulejos narrando a história do país. Vira e mexe as andanças me levavam à ponte D. Luís, onde um dos bons achados foi o café do Casa-Museu Guerra Junqueiro. O jardim da casa barroca do século 18 fica escondido de quem passa na rua, reserva charmosas mesas ao ar livre e compõe o cenário perfeito para uma taça de vinho.

A VOLTA PARA O SUL
Após três horas dirigindo de volta a Lisboa, cruzei a capital rumo à elegante Cascais e ao Oceano Atlântico. Marinas com iates gigantescos, centrinho com construções históricas e praias com areia branca como a do Guincho deixam o Rio Tejo apenas na lembrança. É uma cidade perfeita para a temporada de verão – e também para ver de perto a Boca do Inferno, uma enorme falésia com um buraco onde batem ondas fortes, provocando um barulho levemente assustador. Debruçado na encosta está o restaurante Mar do Inferno, que serve o percebes, marisco de aparência tenebrosa, considerado uma iguaria típica em Portugal.

Muito mais gostosos são os travesseiros da cidade vizinha Sintra, doces de massa folhada e recheados com creme de amêndoas. São  16 quilômetros subindo as colinas da Serra de Sintra em direção ao clima ameno de montanha. Tudo parece saído de um conto de fadas, dos bosques impecáveis e túneis secretos da misteriosa Quinta da Regaleira ao extravagante Palácio Nacional da Pena e sua arquitetura que mistura muitos estilos e cores. A cidade é diferente de tudo que já vi mundo afora e merece mais do que um bate e volta apressado a partir de Lisboa ou Cascais.

Mas o título de melhor descoberta da viagem fica com a Costa Vicentina, litoral a sudoeste de Portugal que esconde cem quilômetros de praias selvagens e mar incrivelmente azul entre enormes falésias. É por ali que passa a Rota Vicentina, um percurso considerado um dos melhores da Europa para fazer a pé, indo de Santiago do Cacém ao Cabo de São Vicente. São 400 quilômetros imersos na autêntica cultura rural portuguesa e no marzão que quase ninguém viu. Faltou tempo para conhecer tudo, mas ainda assim sobrou história para contar.

DICA DE VIAGEM

O Lisboa Card é um daqueles atrativos turísticos que tem seu valor. Com opções de 24 a 72 horas de validade e preços de 19 a 40 euros, o cartão dá acesso livre ao transporte, a vários museus, a viagens de trem para Sintra e Cascais, além de descontos e fura-fila. Facilita a locomoção de um lado para o outro e ainda motiva aquela espiada, mesmo que rápida, a um museu, já que está incluso no valor.
www.lisboacard.org

ONDE FICAR

POUSADA DE LISBOA
Instalada em um edifício histórico do século 17, que já foi casa de reis e ministros, a Pousada de Lisboa fica na emblemática Praça do Comércio. A propriedade do Grupo Pestana tem 90 modernos apartamentos com vistas sempre surpreendentes – ao abrir minha cortina, lá estava o Rio Tejo. Esculturas e relíquias são expostas pelos andares, que preservam o passado entre espaços contemporâneos, como o spa, a piscina indoor e o RIB, restaurante de carnes assinado pelo chef sensação Rui Martins. Atendimento impecável e café da manhã espetacular, servido até as 11h.
Praça do Comércio, 31-34 – Lisboa 
www.pousadas.pt/br

PALÁCIO DO FREIXO 
Do centrinho do Porto, percorre-se quatro quilômetros margeando o Rio Douro para chegar ao palácio do século 18, projetado pelo arquiteto italiano Nicolau Nasoni. Essa distância separa o agito da Ribeira da tranquilidade do edifício considerado Monumento Nacional desde 2010, com piscinas interior e exterior à beira-rio, jacuzzi, sauna e banho turco. Decoração palaciana, pinturas no teto e detalhes barrocos compõem a atmosfera de luxo do hotel, que faz parte do Grupo Pestana. É uma boa pedida para esticar os dias na cidade e curtir a vida no palácio.
Av. Escritor Costa Barreto, 421 – Porto
www.pestana.com/br

FAROL HOTEL 
Ao entrar na preservada mansão do século 19, me deparei com um arrojado projeto arquitetônico cheio de peças de arte e móveis contemporâneos. Debruçado sobre uma falésia, o hotel cinco estrelas tem apenas 33 acomodações, sendo que oito foram decoradas por estilistas famosos, como Ana Salazar. Reserve um quarto com vista para o mar de Cascais e, se possível, com varanda privativa. Deck sobre as rochas, piscina com água salobra, spa e bons restaurantes são alguns dos mimos do hotel, que tem vista para o Farol de Santa Marta, construção de 1868.
Av. Rei Humberto II de Italia, 7 – Cascai
www.farol.com.pt

FOTOS · MARCOS TRINCA

Camila Balthazar
Camila Balthazar
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