Banner Top
Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

ENCONTROS EM PARATY

ATRATIVOS DA CIDADE VÃO MUITO ALÉM DAS CHARMOSAS RUAS DE PEDRA, DOS CASARÕES HISTÓRICOS E DAS BELEZAS NATURAIS

O relógio marcava 19h59 e a porta de treliça de madeira, típica das casas mais antigas de Paraty, já estava aberta. Yara Castro Roberts, a chef, nos esperava com um sorriso no rosto. “Estão um minuto adiantados”, disse, brincando. Era o prelúdio de uma noite inesquecível: a mesa de jantar elegantemente arrumada, a sala integrada com a cozinha moderna, a música instrumental tocando ao fundo, e a sensação de entrarmos na casa de amigos de longa data. Richard Roberts, seu marido e coanfitrião, já estava preparado para servir a primeira caipirinha e explicar, com riqueza de detalhes, os segredos do drink perfeito – algo que os “gringos”, ou melhor, os “outros gringos”, precisam aprender.

Desde 2002, o casal – ela mineira de Belo Horizonte, ele nascido em Paris e criado em Nova York – recebe desconhecidos em seu lar no centro histórico de Paraty para aulas de culinária. Entre a cozinha e a mesa de jantar, eles contam a história da cidade e dos ingredientes utilizados na refeição, falam sobre a própria trajetória e conhecem seus convidados. “Cada pessoa que entra aqui é um prêmio”, afirmou Richard naquela noite.

Diga-se a verdade, o presente ali foi a companhia de ambos e a comida servida. Nenhum prato era por acaso. Inspirada nas tradições locais, Yara utilizou ingredientes típicos da cidade, como banana-da-terra, sororoca (peixe da região), farinha de mandioca e, claro, cachaça. Os sabores aguçavam a curiosidade dos convidados que, enquanto comiam, escutavam sobre o ciclo do ouro e do café, a escravidão, o abandono da cidade e a sua redes coberta com a construção da BR-101, a famosa Rio-Santos.

“O que fazemos aqui, com as aulas de culinária e o jantar, só é pertinente por causa da história. A história da comida é a história de um povo”, disse Yara. Vez ou outra, a Paraty de 2018 nos fazia voltar ao presente, com os sons das conversas dos pedestres nham do lado de fora. Ao fim da noite, a impressão era de termos descoberto todos os segredos da cidade e seu principal trunfo: a gente que ali habita.

  • Igreja de Santa Rita de Cássia, cartão-postal da cidade

Yara e Richard conheceram Paraty no início da década de1980, quando, nas palavras dela, foram “embruxados”. Na época, depois de décadas isolada e longe dos avanços da civilização, a cidade vivia um momento de redescoberta pelos turistas, que começaram a visitá-la por ser um paraíso intocado, com a história impregnada nas ruas de pedra e com uma natureza exuberante.

Até hoje, mais de 35 anos depois, tudo isso ainda é muito forte. Um passeio pelas 33 ruas do centro histórico é obrigatório. São quatro igrejas, cada uma construída para um grupo social do Brasil Colônia: aristocratas, senhoras, negros e pardos. Entre elas, está a Igreja de Santa Rita de Cássia, cartão-postal mais conhecido da cidade. Restaurada em 2015, funciona também como Museu de Arte Sacra de Paraty, mantido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). No acervo, exposto na nave principal, há peças de barro, madeira e metal que datam do século 16.

Mesmo pequeno, o centro da cidade pode ser confuso – o que acaba sendo a graça de andar sem rumo por ali. Há lojinhas e várias galerias de arte, além dos casarões, que, em sua maior parte, estão em perfeito estado. No fim da tarde, quando a maré sobe e entra pelas ruas, os visitantes que descem no porto depois dos passeios de barco param em cada esquina para admirar a cidade de ponta-cabeça: os reflexos das casas na água do mar são tão tradicionais quanto as construções em si.

  • A charmosa arquitetura colonial do Centro Histórico de Paraty

Alugar um barco, aliás, é essencial se a intenção for exploar ao máximo as 65 ilhas da Baía da Ilha Grande. Destas, 29 são área de preservação ambiental. Muitas ilhas, porém, são de propriedade de figurões, como Amyr Klink e família Marinho, que colocam boias na água para evitar visitas às suaspraias que, diga-se de passagem, são públicas.

Cada ilha tem um potencial específico: algumas são especiais para o mergulho, outras para a pesca ou para a prática de esportes, como canoagem. São diferentes tons de verde: o do mar, que em alguns lugares chega a ser translúcido, e o da mata, em especial a Serra da Bocaina, que circunda a região. “Essa é a visão do novo mundo. Foi isso que os navegadores viram quando chegaram aqui”, disse o guia Gabriel Toledo quando nosso barco alcançou a entrada da baía. Nem no meio do mar Paraty nos deixa esquecer da história.

História essa que foi feita principalmente por três povos que, ainda hoje, habitam a região e tentam manter vivas suas tradições: os caiçaras, os negros e os indígenas. A população caiçara é aquela que habita entre a terra e o mar, que vive da pesca e do extrativismo, e que mantém uma relação próxima com o ambiente ao redor. Só no Saco do Mamanguá há oito comunidades. Único fiorde brasileiro, o Mamanguá é uma entrada do mar com oito quilômetros de extensão e dois quilômetros de largura cercado por montanhas de ambos os lados. Para chegar até ali é necessário pegar um barco de Paraty-Mirim ou fazer uma trilha – só recomendada para quem tem preparo físico. É um lugar de beleza abundante e de pessoas generosas, como Dadico, que tem um restaurante na Praia do Pontal.

  • Um passeio pelas tranquilas ruas de pedra do centro da cidade, fundada em 1667

De uma simplicidade aconchegante, seu estabelecimento consiste em duas cabanas com telhado de folha de bananeira e grandes mesas de madeira. O cardápio se resume a uma variedade de peixes pescados na área. Baixo e com cabelos brancos cortados rente à cabeça, barba por fazer e de uma simpatia comovente, Dadico está há alguns anos abrindo uma trilha no Pico da Jamanta e do Cairuçu, na Reserva Ecológica da Juatinga. Enquanto limpava ostras em um tanque de cimento puro, tentava convencer todos a fazer a caminhada. “Não pode assustar”, disse. “São sete horas, mas a gente vai com calma, parando nos poços. É cada cachoeira mais bonita que a outra.”

O turismo, o artesanato e principalmente a gastronomia se tornaram, nos últimos anos, uma fonte de renda importante para comunidades tradicionais da região. “Os turistas chegaram à nossa porta e tivemos de nos organizar para que a nossa história seja contada por nós”, afirma Daniele Elias Santos, coordenadora de turismo de base comunitária do Quilombo do Campinho. Formado inicialmente por seis famílias após a abolição, em 1888, os quilombolas só conseguiram o título da terra em 1999, após anos de brigas na justiça. Atualmente vivem ali cerca de 600 pessoas que mantêm a comunidade culturalmente e economicamente viva.

  • O Pão de Açúcar do Mamanguá, com 438 metros, oferece uma vista espetacular da região

O Restaurante do Quilombo, de fácil acesso pela estrada e a 20 km de distância de Paraty, serve pratos de encher os olhos, como o peixe à moda quilombola, grelhado, com farofa de banana-da-terra, camarão e pupunha na manteiga. Para acompanhar, suco (ou caipirinha) feito com a fruta da árvore do palmito-juçara. Além do restaurante, há também uma visita guiada de três horas, que inclui contação de história, oficinas de jongo, cestaria e plantio. “Não queremos apenas gerar renda para a comunidade, mas também impactar as pessoas que vêm aqui”, diz Daniele.

Depois de vários ciclos – do ouro, do café e do esquecimento – Paraty entra agora em outro, o da descoberta gastronômica. Considerada Monumento Nacional desde 1966 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a cidade ganhou recentemente mais um título: o de Cidade Criativa para a Gastronomia, concedido pela Unesco. São consideradas cidades criativas aquelas que promovem a inovação e a criatividade em prol de um desenvolvimento urbano sustentável e inclusivo. Manter e estimular a comida tradicional feita pelos caiçaras e quilombolas é essencial, assim como aprimorar a agricultura e o turismo gastronômico de forma sustentável.

  • Vista aérea da baía de Paraty: construções históricas rodeadas por paisagens naturais

A tradição da comida é tão presente na cidade que até restaurantes voltados para a alta gastronomia foram buscar nessas comunidades a inspiração para seus cardápios. É o caso, por exemplo, do Via Marine, que fica na Marina 188.Todos os pratos são acompanhados por purê de banana-da-terra, farofa e vinagrete de feijão fradinho. Entre as sobremesas, há uma releitura do manuê, um bolo feito com rapadura, que é típico da região. “Fiz minhas pesquisas com as pessoas que moram aqui, entrei nas cozinhas delas para descobrir seus segredos. A gastronomia só faz sentido quando se integra à cultura ao seu redor”, disse o chef Luciano Baldin.

No fim, a impressão que se tem é exatamente essa. De que em Paraty todos os elementos estão indissociavelmente conectados: a comida, a natureza e a história e, entre todos eles, as pessoas que escolheram (ou que deram a sorte) de morar ali. A certeza é de que este é um daqueles lugares que, ao ir embora, já temos vontade de voltar. Há trilhas a serem exploradas, comidas a serem provadas e novos (velhos) amigos para visitar.

ONDE COMER

ACADEMIA DE COZINHA & OUTROS PRAZERES
Aula de culinária e jantar
Rua Dona Geralda, 93
Centro Histórico, Paraty
(24) 3371-6025

RESTAURANTE DO DADICO
Frutos do mar
Saco do Mamanguá, Paraty
(24) 9930-1612

SERVIÇO

VIA MARINE RESTAURANTE (MARINA 188)
COZINHA INTERNACIONAL COM INSPIRAÇÃO CAIÇARA 
MARINA 188 – RODOVIA BR-101,
KM 578,5 – BOA VISTA – PARATY 
(24) 2122-2624

RESTAURANTE DO QUILOMBO DO CAMPINHO
BR-101, PARATY 
(24) 99836-8615

POUSADA DO OURO
RUA DOUTOR PEREIRA, 298 (ANTIGO 145) 
CENTRO HISTÓRICO – PARATY 
(24) 3371-4300

POUSADA DO PRÍNCIPE
AVENIDA ROBERTO SILVEIRA, 801
CENTRO HISTÓRICO – PARATY 
(24) 3371-2266

POUSADA ARTE URQUIJO
RUA DONA GERALDA, 79 
CENTRO HISTÓRICO – PARATY 
(24) 3371-1362


FOTOS: FLAVIO TERRA

Juliana Deodoro
Juliana Deodoro
Colaboradora

Últimas edições

Vladimir Brichta
Tata Werneck
Sophia Abrahão
Daniel Boaventura
Zac Efron
Thomas Troisgros
Guga Kuerten
Grazi Massafera
Mateus Solano
Klebber Toledo
Patrícia Poeta
Gabriel Medina
Juliana Paes
Rodrigo Hilbert
HUGH JACKMAN
Carol Castro
Débora Falabella
Paulo Gustavo
Dan Stulbach
Letícia Spiller
Camila Queiroz
Glenda Kozlowski
Maria Casadevall
Olivier Anquier
Camila Coutinho
Fernanda Lima
Pedro Andrade
Preta Gil
 Jaqueline Carvalho
Taís Araújo e Lázaro Ramos
Cleo Pires
Mauricio de Sousa
Carol Trentini
Star Alliance
Fábio Porchat
Marília Gabriela
Fernanda Paes Leme
Paolla Oliveira
Flávio Canto
Bruna Markezine
Marina Ruy Barbosa
Ingrid Guimarães
 Malvino Salvador
Isabelli Fontana
Deborah Secco
Meninos do vôlei
Miguel Falabella
Daniel Alves
Luiza Valdetaro
Giovanna Antonelli
Wagner Moura
Revista Giovanna Ewbank
Antonio Fagundes
Reynaldo Giane
Fernanda Motta
Paulo  Gustavo
Cláudia Raia
Maria Fernanda
João Paulo Diniz
Tatá Werneck
Fernando Torquatto Avianca
Junior Cigano
Max Fercondini
 Isis Valverde
 Robert Scheidt
Glória Maria
Alessandra Ambrósio
 Alinne Moraes Luiz Tripolli
Sabrina Sato
Tiago Abravanel

Media Onboard

Responsável por todo o entretenimento e mídia de bordo das aeronaves Avianca Brasil, oferecendo diversas plataformas criativas online e off-line para impactar o público alvo.

anuncie
  • Vencemos o 30º prêmio Veículos de Comunicação como revista customizada de 2016
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
Lost your Password?
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
A password will be send on your post
RegistrationLogin
Registration