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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

Hugh Jackman desembarcou em São Paulo às seis da manhã de um domingo, vindo direto da première do filme “Logan”, no Festival de Berlim. Dois dias depois, o ator, famoso por interpretar o personagem Wolverine, ou Logan, já embarcaria para Londres. Assim que nos encontramos para esta entrevista, ele já comentou que aguentava o ritmo de aeroportos e que seu sonho de criança era ser pago para viajar. Tudo indica que a missão foi cumprida.

Filho caçula de pais imigrantes britânicos, o australiano Hugh Jackman tinha apenas 8 anos quando a mãe se separou do pai e voltou para a Inglaterra. Ele continuou morando em Sydney, na Austrália, com dois irmãos e o pai, que fez carreira como contador da PwC. Ainda durante o ensino médio, Jackman participou de algumas peças de teatro da escola, sem imaginar que o hobby poderia ser levado a sério.

Somente depois da formatura em jornalismo, aos 22 anos, ele entendeu que poderia viver do ofício de ator – e de cantor e dançarino de musicais. Seu primeiro papel foi no seriado australiano “Correlli”, um drama ambientado na prisão, cuja protagonista é sua esposa até hoje. De um lado, Jackman achava clichê se apaixonar pela personagem principal logo no primeiro trabalho, aos 26. Do outro, Deborra-Lee Furness, atriz australiana que naquela época já contabilizava mais de 20 filmes, pensava que não podia estar se apaixonando por um ator 13 anos mais jovem, contrariando todas as suas promessas de ano-novo.

O casal completa 21 anos de casamento em abril e tem dois filhos adotados (Oscar, de 16 anos; e Ava, de 11). Morando em Nova York, eles priorizam uma vida tranquila e sem estrelismos, sempre levando os filhos para a escola de scooter (foto preferida dos paparazzi de plantão). As regras da família são nunca ficar longe de casa por mais de duas semanas e sempre tentar estar em casa aos fins de semana. “Meus filhos estão em uma idade em que querem que eu fique longe. Ou seja, agora é a época que preciso estar em casa!”, enfatiza Hugh.

Como ele mesmo diz, Oscar nasceu junto com o primeiro "X-Men" e Ava, no "X-Men 3". Sua estreia no papel do anti- herói Wolverine, no ano de 2000, foi um divisor de águas na carreira do ator, até então desconhecido de Hollywood. E Jackman não fazia ideia de quem eram os X-Men até ler o roteiro. “Tinha uma banda de rock em Sydney chamada Uncanny X-Men e eu pensei: ‘Eles querem que eu atue como Brian Mannix, o vocalista?’”, lembra o ator, rindo.

Era o começo de uma história de 17 anos como Wolverine e também de muitos outros personagens emblemáticos no cinema e no teatro. Indicado ao Oscar de melhor ator em 2013 e vencedor do Globo de Ouro nesse mesmo ano por sua atuação no filme musical “Os Miseráveis”, o ator também já ganhou um dos prêmios mais cobiçados da Broadway, o Tony Awards, com o musical “The Boy from Oz”. Outros longas-metragens importantes na sua trajetória são o “O Grande Truque” (2006), “Fonte da Vida” (2006), “Austrália” (2008) e “Os Suspeitos” (2013).

Agora, Hugh Jackman está viajando o mundo para lançar “Logan”, que marca a despedida do personagem Wolverine. Na primeira exibição do Filme de James Mangold em São Paulo, assistimos a uma Cenas das histórias mais violentas dos super- heróis X-Men, mas também a uma das mais profundas e humanas, que explora as fraquezas que a violência trouxe para o mutante com garras e ossos de adamantium. “Não queríamos fazer um filme caracterizado pelo gênero histórias em quadrinho. Queríamos fazer um filme sobre um homem, que está emocionalmente cansado e tem pouca esperança de alcançar paz. É um filme que encontrou o coração do Wolverine”, afirma Hugh Jackman, revelando que chorou diversas vezes ao assistir à sua última aparição como Logan na tela do cinema.

O  filme X-Men 2 começa com a frase “Compartilhar o mundo nunca foi o atributo mais nobre da humanidade”. Dezessete anos depois, sua última vez como Logan nos mostra um personagem que parece ter desistido de compartilhar o mundo. Isso nos faz olhar para o mundo fora da  cção. Em sua opinião, como está nossa habilidade de compartilhar o mundo?

Acho que estamos dividindo menos. Se pensarmos na história da humanidade, os últimos 30 anos têm sido uma enorme mudança, uma revolução na globalização e na conectividade através das  nanças, viagens, tudo. Estamos muito mais conectados, então estou torcendo para que esse isolamento das pessoas seja uma reação ao medo da mudança. Quando eu era criança, tinha um mapa do mundo perto da cama e sonhava em ir para todos os lugares. Não gosto da ideia de fronteiras. Amo que existam diferenças, que você respeite culturas e que você as preserve. Mas isso é compartilhar. E não é isso o que deveríamos estar fazendo? Então, o que eu amo nessa história é que, por fim, nossa habilidade de compartilhar o mundo é a nossa habilidade de sermos íntimos com os outros. Quando você está compartilhando, não são apenas as coisas boas. Você tem que compartilhar as coisas ruins, as coisas embaraçosas e as coisas das quais você não se orgulha muito.

Aliás, você falou sobre isso ontem durante a coletiva de imprensa. O filme “Logan” e os outros “X-Men” falam de discriminação, do medo de intimidade, de se conectar...

É exatamente isso. É uma alegoria ao Movimento dos Direitos Civis que aconteceu nos anos 1960 (luta dos negros estadunidenses por seus direitos). O personagem do Professor Xavier representa o (pacifista) Martin Luther King, enquanto Magneto é Malcolm X (conhecido por seu discurso mais radical). Como lidaremos com isso? Lutamos contra ou tentamos encorajar? Não tem uma resposta simples. É como o poema de 1914, de Robert Frost, “Mending Wall” (em tradução livre, “Remendando parede”. O poema discute o valor da construção de barreiras para a solução de con itos e termina com a famosa frase “Boas cercas fazem bons vizinhos”). Deveríamos chamar nossos vizinhos para jantar ou criar uma cerca e apenas acenar de longe? Devemos seguir separados? Acredito que não, mas esta é uma boa questão.

Você já comentou que os próximos projetos serão focados em algo que você acredita. O que você quer mostrar para as pessoas?

É importante tocar as pessoas. Filmes espetaculares que entretêm são ótimos, mas não ficam com você no longo prazo. Se você conseguir entreter pessoas, fazê-las rir, chorar e, melhor ainda, movê-las e derreter seus corações, é o ouro. Ao assistir ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, aos 17 anos, minha vida mudou e realmente despertei. Eu adoraria fazer  lmes assim e quero trabalhar com pessoas que também acreditam nisso. Quero fazer coisas diferentes. Estou fazendo um  lme musical agora – não podia ser mais oposto ao “Logan” – que se chama “The Greatest Showman”, sobre um homem, P.T. Barnum, que é o mais positivo que você vai conhecer na história. Também quero fazer teatro, com peças em que eu tenha algo a dizer, que possam mover você, derreter seu coração e que sejam desa adoras para mim como ator.

Trazendo uma frase do “Logan” para a conversa, ele diz para a personagem Laura Kinney “não ser aquilo que  zeram dela”. Você seguiu esse conselho na sua vida? O que você queria para sua vida quando criança e o que você acha que o Hugh Jackman de 15 anos pensaria de quem você é atualmente?

Acho que ele  caria bem feliz. Quando Logan diz isso para aquela garota, para mim, isso vai direto para o coração. Quem são eles? Podem ser seus pais, seu sócio, a sociedade. Todos sentimos essa pressão de ser uma pessoa que talvez nós não seremos, e talvez devêssemos ser algo diferente. Não acho que eu sabia o que queria fazer aos 15 anos e realmente não sabia até os 22 anos. Sempre fui muito inquisitivo e com uma mente  losó ca: “Qual é o sentido da vida? O que acontece depois daqui?” Deve ter algo a mais do que comer, festejar, comprar um carro e morrer. Deve ter mais da vida do que isso. Então sempre busquei essas respostas.

E você encontrou?

Ainda não. Não sei se você encontra algum dia. Achei que tinha encontrado aos 25 anos: “Agora entendo a vida, tenho 25 anos, entendi”. E então, quando casei, pensei: “Ah, entendi!”. Aí tive  lhos e falei: “Não sei nada” (risos). Assim que você tem  lhos, você descobre que você realmente não sabe nada. Mas me sinto mais próximo dessa resposta, particularmente nos últimos três anos. De certa forma, o  lme “Logan” representa uma jornada pessoal para mim, fazendo o que realmente quero, o que me inspira.

Você viajou muito com o Wolverine ao longo destes 17 anos. Você acha que diferentes culturas e nacionalidades entendem o personagem de formas distintas?

Os brasileiros entenderam logo no começo. Posso mostrar resultados em que você vê isso no papel, mas eu sinto isso quando venho aqui. Quando eu estava na coletiva de imprensa ontem, tem esse calor recíproco. Sempre amei os brasileiros. O nível das perguntas, e você incluída... São sensitivas, interessantes e bem pensadas. E tenho feito isso há 17 anos.

Aposto que você já está cansado das perguntas...

Aqui não. Recebo perguntas que nunca havia recebido antes. De verdade. Cada lugar vê de uma forma diferente. Grupos diferentes, idades diferentes, homem e mulher, crianças – apesar de esse  lme não ser para crianças –, mas as pessoas realmente olham de forma diferente. E o que adoro é que o X-Men se conecta com todo mundo porque não importa quem você seja, em algum momento da sua vida você já se sentiu discriminado, não compreendido, um estranho. E torceu para ter garras!

Quantas vezes você já esteve aqui?

Cinco ou seis vezes.

O que mais te chama atenção no Brasil?

O jeito de viver. Depois de viajar bastante pelo mundo, pensei: “Nós, australianos, sabemos como trabalhar muito e nos divertir muito”. Mas o Brasil faz melhor. Quem tem cinco dias de férias para uma festa (carnaval)? Sério! Que país pensa: “Nós deveríamos tirar cinco dias para dançar, beber, festejar e estar juntos?”. Gosto da comida, do clima, das pessoas. Tudo parece estar vivo, fresco, vibrante, caloroso, e eu amo aqui.

Voltando para “Logan”, mais uma vez vemos cientistas criando ou melhorando seres humanos ou mutantes de forma arti cial. Quando olhamos para o mundo hoje, percebemos que estamos caminhando para essa direção. Qual é a sua opinião sobre esse tema?

Você é a primeira a me perguntar sobre isso. Nos créditos do  lme você verá Siddhartha Mukherjee (físico, biólogo e cientista). Ele ganhou o prêmio Pulitzer pelo seu livro sobre câncer (“O Imperador de Todos os Males – Uma Biogra a do Câncer”), em 2011, e acabou de escrever um livro sobre a história do gene (“O GENE: Uma História Íntima”). Tem um capítulo sobre X-Men, sobre mutação, basicamente dizendo que isso não é  cção cientí ca. Estamos em um momento da história em que se nós, humanos, fôssemos máquinas, entenderíamos as nossas próprias instruções. O que acontece quando uma máquina entende suas próprias instruções e agora tem o poder de mudá-las? É isso que está acontecendo. A ciência está muito mais avançada do que a  loso a. A humanidade, como conhecemos, pode mudar. Podemos nos livrar geneticamente da depressão. Podemos nos livrar de muitas coisas, mas ninguém está fazendo a pergunta: “Não são as nossas falhas que nos fazem humanos?”. O que acontece se estivermos imunes a doenças, à impulsividade, se formos todos ridiculamente inteligentes? Se formos todos perfeitos, como será este mundo?

Como você acha que será o mundo dos seus filhos quando eles tiverem a sua idade?

Rápido, muito rápido. Sou um otimista. Não tenho medo de mudanças. Quando o trem foi inventado, metade do mundo achou que era a pior coisa que poderia acontecer. Mas é só um trem, uma coisa boa. Aviões são uma coisa boa. Nós sempre vamos mudar. Mas penso ser importante darmos espaço e tempo e escutarmos pessoas mais inteligentes do que nós, que estão fazendo perguntas bem provocativas sobre quem nós queremos ser e como queremos moldar nosso mundo. Isso também vale para meio ambiente, economia, globalização, ciência... Tudo está acontecendo tão rápido e acredito que a geração mais nova – estou envolvido com eles em alguns projetos – está muito mais atenta sobre como compartilhar este planeta de uma forma melhor do que a minha geração tem feito. Tenho esperança.

POR. CAMILA BALTHAZAR
FOTOS. MAURICIO SANTANA

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