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Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

AS VÁRIAS FACES DE UM CRISTAL

MÔNICA TEM A DISCIPLINA DE UMA BAILARINA, A HIPERATIVIDADE DO ESTEREÓTIPO ITALIANO E O AUTOCONTROLE DE UM MERGULHADOR. AOS 51 ANOS, A DIRETORA GERAL DA SWAROVSKI PROFESSIONAL NO BRASIL TRIPLICOU O FATURAMENTO DA EMPRESA DESDE QUE ASSUMIU O CARGO, NO FINAL DE 2011. ANTES DISSO, DIRIGIU A OPERAÇÃO BRASILEIRA DA MISSONI E DA NATUZZI, ALÉM DO GRUPO CARIOCA ALIANSCE SHOPPING CENTERS. A EXECUTIVA EQUILIBRA VIAGENS MENSAIS A TRABALHO, MENTORIAS COM JOVENS E VIDA PESSOAL. “QUANTO MAIS EU ME ENTREGO, MAIS EU RECEBO EM TERMOS DE FELICIDADE INTERIOR”, DIZ. “ENTÃO EU TENHO QUE PRIORIZAR, ARRUMAR UM TEMPO PARA TUDO. TEM GENTE QUE FALA QUE MEU TEMPO É ELÁSTICO COMO  A LYCRA”, BRINCA MÔNICA, SE REFERINDO À SUA PASSAGEM PELA DUPONT, QUANDO ASSUMIU A GERÊNCIA DE MARKETING DA LYCRA COM APENAS 25 ANOS

Essa tragédia, que pouca gente sabe, serviu não só para medir minha força e resiliência, mas também para criar ainda mais amor e garra pela vida”, diz Mônica Orcioli durante nossa conversa em sua sala no escritório da Swarovski, em São Paulo. As lembranças de 40 anos atrás vêm à tona: o trajeto de volta da fazenda no interior de Minas Gerais, a troca do carro dos pais para o dos tios, o momento em que ela dormiu, a pancada do acidente – deletada da memória –, a morte do tio. “Tive parada cardíaca, fratura exposta, entrei em coma”, lembra. “Por pouco não fiquei sem mobilidade na perna esquerda.” E isso ainda significaria abandonar as aulas de balé e os exames da Royal Academy of Dance.

Foram três meses totalmente deitada, mais três meses para reaprender a andar. Sua casa virou hospital e escola. “As pessoas tiveram muita habilidade para que eu enxergasse tudo com a maior naturalidade possível”, diz. “Acabou dando certo. E aí eu queria voltar para o balé. Como ia ser?” No meio de um grand battement ou de um arabesque, movimentos clássicos em que a perna voa firme e leve no ar, ela era fisgada por uma dor que até pouco tempo não existia. Ao ouvir o suspiro de reclamação da aluna de 11 anos, a professora Ilara Lopes parava para entender o que estava acontecendo. “Acho que é meu pino”, dizia Mônica, olhando para o fêmur. “Então não levanta a perna tão alto”, ela ouvia como resposta, em tom suave.

A dor passou, o ritmo voltou. A paulistana descendente de italianos concluiu a graduação da Royal Academy e dançou em palcos tão marcantes quanto o do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, muitas vezes como bailarina principal. Mas, anos depois, já no último semestre da faculdade de marketing da ESPM e passando mais horas do dia na ponta do pé do que na universidade, ela decidiu buscar um estágio. “Todo mundo falava que eu era louca, que não ia conseguir trabalho”, lembra. “Eu só queria dançar.” Ao encostar as sapatilhas, ela entrou para a Ogilvy Brasil para experimentar o tal lado executivo, descobrir se tinha talento. Passou por outras duas agências de publicidade e, com apenas 25 anos, assumiu um cargo alto na DuPont: gerente de marketing e comunicação para América do Sul da Lycra.

“Sempre fui bem serena e objetiva nas minhas colocações”, comenta Mônica, ao investigar o motivo para conquistar um time tão cedo. “Sou uma pessoa superarrojada nas minhas decisões estratégicas, decisões de vida. Mas sempre analiso com muito tempo e com muita coragem.” Assim, sem esperar se as oportunidades iriam ou não aparecer, ela traçou seu próprio caminho. Quando sentiu que era hora de entender da área comercial, pediu uma transferência – e repetiu o movimento várias vezes, transitando entre logística, supply chain e produção.

“Ninguém pensava: ‘vou tirar a Mônica do marketing e colocar em vendas’. Eu poderia ter ficado lá até hoje”, comenta a executiva, repetindo o que costuma falar para os jovens que recebem sua mentoria. “Eu não teria assumido uma unidade de negócios se tivesse vindo só do marketing e da comunicação.”

Passados 12 anos na área têxtil da DuPont, Mônica usou toda a sua coragem para dar o próximo passo. “Foi uma decisão difícil sair de uma empresa que eu gostava por achar que outro desafio ia me fazer uma executiva melhor no longo prazo”, diz. Ela assumiu sua primeira direção geral na Aliansce Shopping Centers, em 2004, e levou para o varejo a ousadia de quem fazia reuniões no bosque vizinho da DuPont, quando hábitos como esse ainda eram um tanto excêntricos. Depois de dois anos à frente do Shopping Taboão, a paulistana se mudou para o Rio de Janeiro com os filhos para abrir o Shopping Leblon – enquanto o marido carioca ficou em São Paulo –, fez promoções na época inimagináveis para um empreendimento de luxo, acompanhou trocas de turnos todas as manhãs, agradeceu os funcionários um a um e até hoje ainda escuta uns “Dona Mônica!” quando passeia pelos shoppings.

“Estar junto com as pessoas é o maior legado que você pode ter”, observa. Ironia ou não, o próximo movimento na carreira a levou a uma empresa vazia. A italiana Natuzzi estava começando sua operação de mobiliários no Brasil, em 2009, e precisava montar tudo do zero – da identidade jurídica ao aluguel do escritório e à contratação de equipe. “Não pude deixar de abraçar o desafio”, diz Mônica. “Foi um projeto muito rico, além de ser o retorno para uma multinacional. Você tem aquela sensação de ser cidadã do mundo.” Dali, ela seguiu para a também italiana Missoni, grife conhecida por seus tecidos com estampas coloridas, ocupando a posição de Country Manager por 10 meses. “Fiquei pouco tempo porque acabei vindo pra cá”, comenta a executiva, se referindo à joalheria austríaca. “Fui roubada”, brinca.

O convite veio do vice-presidente das Américas – e a indicação veio da Carla Assumpção, colega de outros projetos que estava deixando a divisão B2B da Swarovski para assumir a divisão de varejo. “Até hoje somos pares”, comenta Mônica. “Eu fico em um andar, ela em outro.” Já os desafios são distintos. Enquanto Carla foca nas lojas, Mônica movimenta as parcerias dos cristais com marcas, como Havaianas, Chilli Beans, Osklen e Alexandre Birman, e dirige a nova área de brindes corporativos e soluções customizadas. “Triplicamos o faturamento em seis anos. Além do Brasil, assumi a responsabilidade na América Latina. É um trabalho intenso que vem não só de mim, mas da equipe.” Depois de quase 30 anos de carreira corporativa, sua grande motivação hoje está no outro, nas pessoas ao seu redor.

“Com a maturidade – já estou no mercado de trabalho há quase 30 anos –, o foco também muda”, comenta. No começo da carreira, execução perfeita e deadlines cumpridos com maestria eram sua preocupação. Depois, veio a necessidade de aprimorar seu conteúdo estratégico: MBA na Universidade de Pittsburgh, cursos em Stanford e em Harvard. “Agora o foco está no desenvolvimento de pessoas”, diz. “Eu não faço absolutamente nada sozinha. Adoro trabalhar em equipe, desenvolver pessoas, formar sucessores, ver as pessoas sendo valorizadas dentro da organização.” Com uma agenda intensa, que também inclui mentoria para jovens executivos dentro e fora da Swarovski, ela garante que aprende muito mais com essas trocas do que ensina. “Por isso que eu digo: será que minha história pode inspirar alguém?”

A pergunta deve ser retórica. Considerada uma das 40 mulheres mais poderosas do Brasil pela Revista Forbes no final de 2017, Mônica inspira com as escolhas diárias, com o resultado, mesmo em tempos de crise, com a paixão por se cercar de um time eclético. “É da diversidade que os melhores resultados vão acontecer”, diz. Contrária à divisão das pessoas em gerações enlatadas, ela prefere dizer que são “estilos de vida diferentes”. “Você tem pessoas de 70 anos que são mais modernas que as de 20 – e vice-versa. Então não dá para estigmatizar, rotular. Precisa entender os perfis mais diversos de pessoas”, acredita. É por isso que ela não tem apenas mulheres de 50 anos à sua volta – apesar de comemorar as recentes conquistas femininas.

“É um momento de transformação profunda”, diz. “As mulheres estão tendo mais coragem para expor suas dificuldades. E os homens também. Por que pais não podem chegar atrasados depois de levarem o filho no pronto-socorro ou de assistir à apresentação do filho? É um movimento único: do homem e da mulher. As pessoas estão sendo mais verdadeiras e transparentes em todos os ambientes.” Essa postura também pautou sua própria carreira. Se uma hora a maternidade chamava mais alto, Mônica desacelerava do trabalho ou recusava algum convite. “É a maturidade de você estar feliz com as portas que fecha temporariamente porque sabe que depois outras vão se abrir.”

E isso não significa saber exatamente o que está por trás de cada porta. Em vez de criar um plano de carreira de longo prazo, Mônica prefere curtir cada momento, sem grandes expectativas. “Quando você tem um sonho gigante, a chance de frustração é imensa”, diz. “Se alguma coisa não der certo, você lamenta que chegou a 95% da meta. Mas faltaram 5%... Por isso falam que o medalhista de prata, o segundo colocado, é mais infeliz que o de bronze.” Para ela, importante mesmo é resgatar a paixão que existe dentro de cada um, não só pelo trabalho, mas também pela família, pelos amigos, pelo voluntariado. “É essa energia que nos move.”

Com seu tom de voz suave, Mônica discorda de quem acredita que ela seja sempre calma. “Sou hiperativa”, garante. Ela equilibra sua energia com a disciplina aprendida na dança e com o controle exigido no mergulho autônomo. Mês passado, Mônica esteve no meio do Oceano Pacífico, nas ilhas vulcânicas de Galápagos, no Equador, mergulhando com tubarões gigantes. Lá embaixo d’água, a 20 metros de profundidade, ela sente a paz e o silêncio do mar, ao mesmo tempo em que administra todas as ameaças externas. “Você tem que ter total controle. Se entra água dentro da máscara, o que você vai fazer?”, questiona. “Se você é uma pessoa afobada, entra em pânico e não consegue resolver. Além disso, precisa dosar a curiosidade de querer explorar uma caverna, por exemplo. Se é um mergulho longo, precisa fazer compensação dos ouvidos. Não pode subir rápido.”

A plenitude do fundo do mar vira metáfora para o aparente caos corporativo. “Você mergulha e tem o comando. Isso também existe nas empresas”, diz. “Quem vê de longe enxerga aquele mar mexido, o vendaval, um naufrágio. Mas o gestor ou gestora vai navegando e transformando as equipes e as empresas.” Para Mônica, por mais que o mergulho pareça um mundo distante da dança, a sensação é a mesma. Depois de 20 anos sem vestir suas sapatilhas de balé, a executiva voltou para os holofotes há três anos. No final de 2017, seus giros e movimentos sincronizados subiram ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, onde ela se apresentou com o grupo de bailarinas da Ilara Lopes, a mesma professora que a acompanhou na infância. “Sou igual aos cristais da Swarovski”, comenta. “Tenho várias facetas.”

Camila Balthazar
Camila Balthazar
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