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Domingo, 19 de Novembro de 2017

VIDA E VENDA EM MOVIMENTO

“EU COSTUMO DIZER QUE, QUANDO VOCÊ DÁ UM TÍTULO PARA UMA PESSOA, ELA SÓ FALA O QUE VOCÊ QUER OUVIR”, DIZ LUIZA HELENA TRAJANO, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO MAGAZINE LUIZA DESDE 2016. “ELA NÃO FALA MAIS O QUE VOCÊ PRECISA OUVIR. ISSO É MUITO SÉRIO.” A EMPRESÁRIA VAI CONTRA ESSA CORRENTE. ELA MANTÉM UMA LINHA DIRETA COM CLIENTES E COLABORADORES, ESTIMULA RECLAMAÇÕES EFALA O QUE PENSA. COM BASE EM VALORES CHAMADOS “INEGOCIÁVEIS”, QUE COMBATEM FALTA DE ÉTICA E ASSÉDIO, PARA CITAR ALGUNS, O MAGAZINE LUIZA É FIGURA REPETIDA NO RANKING DE MELHORES EMPRESAS PARA TRABALHAR E DÁ CADA VEZ MAIS LUCRO. E MUITO DISSO É INTRÍNSECO À LUIZA, QUE COMEÇOU NA REDE VAREJISTA COM APENAS 12 ANOS, AJUDANDO NAS VENDAS DE FIM DE ANO PARA GANHAR DINHEIRO E COMPRAR PRESENTE PARA OS FAMILIARES.

A segunda-feira sempre começa com o hino nacional. A tradição de 1991 sintoniza os 20 mil colaboradores das 820 lojas do Magazine Luiza espalhadas em mais de 700 cidades por todo o Brasil no mesmo horário, às 8h, para o chamado “Rito de Comunhão”. Já no escritório administrativo, localizado nos dois andares superiores da megaloja na Marginal Tietê, em São Paulo, o ritual começa às 8h30. Como a entrevista com Luiza Trajano estava marcada para as 9h de uma segunda-feira, cheguei a tempo de ouvir o final do encontro, que também toca o hino da empresa.

O som que ecoava das caixas de som anunciava as boas notícias da semana: o filme da campanha de dia dos pais teve bom retorno no YouTube, as vendas superaram as expectativas e agora o traje bermuda está autorizado no ambiente de trabalho. No final dos avisos, escuto apenas as palavras “pai nosso...”, seguidas de silêncio.A partir desse sinal, imagino que cada um siga sua própria oração. “Sou uma apaixonada pelo Brasil”, diz Luiza Helena Trajano, já de volta à sua sala de paredes de vidros e portas abertas, bem na entrada do escritório. “Por isso tocamos o hino nacional em todas as lojas.”

Mais longe da operação do Magazine Luiza desde 2016, quando assumiu a presidência do conselho de administração, a empresária não tira o olho do negócio. Ela disponibiliza seu e-mail pessoal para receber reclamações dos clientes e tem uma linha direta com a equipe de base da empresa, uma espécie de disque-denúncia. “Não tenho aquele papel intocável no conselho”, afirma. “Não quero ficar isolada. O poder, às vezes, deixa a pessoa achando que ‘isso não é para mim, já cresci’. Aqui não tem isso”, conta Luiza, dizendo que sua rotina pouco mudou após deixar o cargo que exerceu por mais de 20 anos.

O bastão da presidência executiva está com seu filho Frederico Trajano desde o início de 2016. “Dá Ibope dizer que a mãe passou para o filho”, comenta a empresária natural de Franca, no interior paulista. “Mas o Frederico pegou do Marcelo Silva, que estava aqui há seis anos. O Marcelo ajudou a fazer essa transição. Sou muito grata a ele.” Já Luiza herdou o bastão de sua tia, Dona Luiza. O mesmo nome gera confusão, mas os fundadores da quinta maior rede brasileira de varejo são Luiza Trajano Donato, hoje com 91 anos, e seu marido Pelegrino José Donato, com 93.

A história do casal empreendedor nos leva ao ano de 1957, em Franca, município paulista encostado na divisa de Minas Gerais. Foi lá que Dona Luiza comprou A Cristaleira, pequena loja de móveis e eletrodomésticos. A mudança do nome da marca aconteceu após um concurso promovido na rádio local: Magazine Luiza foi quase unanimidade e segue firme e forte desde então, mesmo não fazendo muito sentido, como diz Luiza.

A sobrinha do casal fez sua primeira venda com apenas 12 anos, trabalhando durante o mês de dezembro. “Comecei porque eu gostava de dar presente. Minha mãe disse: ‘quer comprar presente? Então trabalha, ganha e paga’”, lembra Luiza, dizendo que a família logo percebeu que ela levava jeito para vender. A mãe e a tia sempre a apoiaram – e são as principais inspirações da empresária  ficavam meio em dúvida quando eu dizia que estava intuindo algo. Depois que viram que minhas intuições deram certo, eles agora perguntam: ‘O que você está intuindo?’”, brinca Luiza.

Ela cita com frequência os “Inegociáveis”, que regem o código de conduta da empresa – e são mais do que um quadro com dizeres bonitinhos pendurado na parede. Falta de ética, discriminação e assédio moral ou sexual são alguns dos comportamentos proibidos.“Não abrimos mão da ética”, garante Luiza. “É proibido tapear cliente, embutir coisa, fazer discriminação. Não tem idade para ir embora da empresa ou idade limite para entrar.” Quando a lei das cotas para deficientes finalmente entrou em vigor, em 2004, Luiza ficou com vergonha dos seus próprios números. “Mas resolvemos assumir e hoje nem precisamos mais da lei para cumprir o percentual.”

Fora do Magazine Luiza, ela é presidente do Mulheres do Brasil, grupo criado em 2013 para discutir educação, empreendedorismo, projetos sociais e cotas para mulheres. “Também temos um comitê de combate à violência contra mulher”, diz. “Eu sabia que uma mulher morre a cada uma hora e meia, mas nunca trabalhei a violência aqui dentro porque achei que estava longe de nós.” Enquanto fala, a empresária mostra ainda estar abalada com a tragédia que aconteceu um mês antes. “De repente, uma gerente nossa de 37 anos foi morta pelo marido.”

O assunto virou prioridade. “A mulher nessa situação ainda tem muita dificuldade de pedir ajuda”, observa. “É o único crime que ela passa a ser ré. Se o marido bateu, é porque ela fez alguma coisa. Isso está enraizado. É muito mais grave do que a gente pode pensar.” Luiza não usa o rótulo feminista e prefere dizer que não é contra homens, mas a favor das mulheres. “Hoje temos 7% de mulheres em conselhos de empresas de capital aberto. Se tirar os casos de donas ou filhas de donas, como eu, vai para 3%. Desse jeito vai levar cem anos para chegarmos a 15%”, afirma ela, defendendo as cotas como um processo transitório e necessário para resolver casos de desigualdade.

As colaboradoras do Magazine Luiza com filhos até 11 anos também ganham um “cheque mãe”, para ajudar nos custos da casa. “A gente não dá para homem porque, se o filho não der certo, a sociedade vai cobrar da mãe”, diz. “Apesar de hoje os homens serem melhores pais, eles ainda não pagam o preço social do filho. Nenhuma sogra vai falar: ‘mas também, você trabalhou tanto’. Para a mulher vai falar”, comenta Luiza, afirmando que o benefício também vale para pais homossexuais com filhos. “Só estou contando isso para dizer que não tem nenhum tipo de preconceito. É proibido ter.”

A história de Luiza se funde com a da empresa. Se alguma pergunta remete ao passado longe das lojas, ela encontra um jeitinho de responder com casos e valores do Magazine Luiza. Já suas opiniões vêm à mesa com facilidade. Adepta do confronto saudável e de não jogar nada debaixo do tapete, ela afirma estar mais voltada a ajudar o Brasil e a devolver parte do que já recebeu na vida. “Meu sonho hoje é criar o maior grupo político apartidário através da sociedade civil”, diz Luiza, se referindo ao Mulheres do Brasil. “Temos inegociáveis também. Não pode sair candidata, nem montar partido, nem reclamar. Tem que fazer acontecer.”

Feliz com as conquistas, mas mantendo um eterno inconformismo que a leva a dar o próximo passo, é difícil ver Luiza parada ou dormindo mais do que quatro ou cinco horas por noite. “Por eu estar sempre em movimento de mudança, nunca sei muito bem o que estou fazendo”, diz ela, rindo. “Sou mais da prática do que da teoria.” E de muito treinamento. Quando criou seu perfil no Instagram, que hoje tem 41 mil seguidores, ela postava fotos que envergonhavam a filha. “Comecei a treinar todos os dias”, conta. Seu lema é conhecido na família. Quando perdeu para o neto no vídeo game, o pequeno não teve dúvidas: “Ué, vovó. Treina, treina, treina todos os dias e não desista. Não é assim que você fala?”

Camila Balthazar
Camila Balthazar
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