Banner Top
Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

PEQUENOS DESAFIOS CONSTRUÍRAM UMA GRANDE CARREIRA

O FUNDADOR E CEO DA TOTVS, MAIOR EMPRESA BRASILEIRA DE SOFTWARE DE GESTÃO, TEVE O QUE AS PESSOAS GOSTAM DE CHAMAR DE CARREIRA METEÓRICA. COMEÇOU A TRABALHAR COMO ESTAGIÁRIO NO PRIMEIRO SEMESTRE DA FACULDADE DE ENGENHARIA ELÉTRICA NA USP E, CINCO ANOS DEPOIS, COM O DIPLOMA FRESCO NA MÃO E UM CARGO DE DIRETOR, PROPÔS UMA SOCIEDADE COM O CHEFE. PARA LAÉRCIO COSENTINO, O SEGREDO DA SUA HISTÓRIA É VENCER VÁRIOS PEQUENOS DESAFIOS. “ESTAMOS DIANTE DE MAIS UM DESAFIO, QUE É A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL”, DIZ. “NADA É DIFERENTE DO QUE JÁ VIVEMOS LÁ ATRÁS, MAS ANTES VOCÊ TINHA MAIS TEMPO PARA ENCONTRAR SOLUÇÕES.”

O garoto ia de barraca em barraca na beira da pacata praia de Mongaguá perguntando se alguém conhecia o “Zé da Praia”, um dos devedores do falecido avô. Ao encontrá-lo, ele cobrava o fiado que ficara para trás, em tempos em que a caderneta fazia as vezes de máquina de cartão no armarinho. Essa cena das férias de infância no início dos anos 1970 é uma das que Laércio Cosentino mais gosta de contar. E era mesmo uma boa ideia para implementar, considerando que a energia elétrica sequer dava sinais de chegar à cidade de poucos habitantes.

Afinal, não podia ser tão difícil achar o Zé da Praia, a Maria do Mercado ou a Paula da Praça, como diziam os escritos do avô. “Eu tinha uns 10 anos”, lembra Laércio, hoje aos 57 anos. “Eu pensei: ‘Zé da Praia deve ser na praia’. Peguei minha bicicleta e fui perguntando em todas as barraquinhas se o Zé estava ali. Deu certo. Consegui receber uma série de coisas”, diz o empresário, que se apresentava como neto do Walter e mostrava as dívidas marcadas na caderneta. “Ao olhar para o passado, vejo que essa foi minha primeira oportunidade de fazer algo diferente.”

Se durante as longas férias de quatro meses por ano ele gostava de se envolver nos negócios na loja da praia, na escola em São Paulo seu papel era o de melhor aluno. “Nunca estudei muito, mas minha média deve ter sido entre 9,4 e 9,6 durante todo o primário.” Para ele, as notas altas eram resultado da sua alta estatura. Nascido no mês de agosto, ele foi matriculado na turma dos mais velhos, por decisão do padre do Colégio Salesiano Santa Teresinha, na Zona Norte de São Paulo. “Ele é mais alto. Não tem nada a ver com essa turma da idade dele”, disse o padre. As notas boas viraram a ferramenta para ele provar que merecia estar ali.

Os oito meses letivos na cidade nem contrastavam tanto com a temporada da praia. “Aqui era quase um sítio”, comenta o executivo, ao lembrar da Zona Norte daquela época. “Tinha plantações, criações de vaca. Era brincar na rua o tempo todo”. Talvez daí tenha vindo sua vontade de ser fazendeiro, um sonho de criança que também se alternava entre o desejo de ser prefeito e o de trabalhar até os 40 anos de idade. A habilidade com raciocínio lógico o levou para a engenharia elétrica, além de um curso de economia abandonado quase no último ano, e para o prédio onde hoje está a TOTVS, em cima do antigo campinho de futebol da Zona Norte.

“Não fui nem prefeito, nem fazendeiro, nem parei aos 40, mas realmente é uma grande história”, brinca Laércio, se referindo à trajetória que começou em 1978 como estagiário da Siga. Quem o indicou para a vaga foi o pai, amigo de Ernesto Haberkorn, fundador da empresa de tecnologia que desenvolvia sistemas para automatizar processos administrativos. Já como analista, Laércio percebeu que faltava alguém para fazer a gestão da equipe de digitadores e programadores e se candidatou para o posto de gerente. Ganhou o desafio. Um ano depois, propôs que ele assumisse uma diretoria. Ganhou também. E, em 1983, com cinco anos de casa, chamou Ernesto para um almoço, a fim de apresentar mais uma ideia.

A partir daí, a história de Laércio se mistura com a história da TOTVS. “Eu virei para ele e falei: ‘olha, foram vários desafios nesses últimos anos. Agora eu gostaria de um novo: pegar todo o conhecimento que temos e montar uma nova empresa para desenvolver softwares para microinformática”, lembra. A inspiração vinha das palavras de Bill Gates, que havia afirmado que um dia todos os lares teriam computadores. Se a “profecia” se concretizasse e essa fosse a realidade das casas, imagina quantos PCs não teriam as pequenas e médias empresas?

Ernesto gostou da ideia. Sugeriu ficar com 90% da nova empresa, mas Laércio queria a metade. Negociaram até chegar ao que o garoto de 23 anos queria: 50% da sociedade. “Quando ele perguntou os detalhes, puxei os papéis prontos da pasta e falei: ‘a empresa vai chamar Microsiga, o logotipo é esse e aqui está o contrato. Vamos assinar?’”, diz Laércio. Ernesto emendou perguntando quem seria o primeiro cliente. “Já tenho o primeiro cliente. Já está fechado”, respondeu o novo sócio. Os dois acordaram que, se a Microsiga ficasse maior do que a Siga, juntariam tudo em uma única empresa – fato que aconteceu seis anos depois.

Com esse misto de ousadia e autoconfiança, Laércio virou dono da própria empresa. “A oportunidade passa por todos nós”, comenta o engenheiro. “Mas poucos têm desejo de realmente captar essa oportunidade. Poucos conseguem realizar, executar e entregar.” E, para ele, nunca se deve cruzar a linha de chegada. “Eu penso assim: você tem que ter uma meta e, toda vez que chegar perto, tem que empurrar o objetivo um pouquinho mais pra frente”, explica Laércio, passando a receita de que “não pode dar um chutão tão para frente que você nunca chega perto, mas também não pode não se desafiar”. E, no fim, é a somatória desses pequenos desafios que constroem uma carreira de sucesso.

A Microsiga, que, segundo Laércio, deve ter sido a primeira startup do Brasil, ganhou escala e conquistou seu primeiro sucesso com o modelo de distribuição. “Essa parte também tinha que ser empreendedora”, diz. “Criamos o que chamamos de Tratado de Tordesilhas: ‘vamos ocupar o Brasil antes que alguém ocupe o nosso lugar.” Com base em um sistema de franquia, a empresa mapeou o país em mais de 40 regiões economicamente ativas e buscou jovens empreendedores das primeiras software houses com PCs. “Ao invés de eles fazerem algo sozinhos, adotavam a Microsiga e ganhavam escala. Nunca ninguém tinha feito isso.”

Já nos anos 2000, depois de se lançar no mercado internacional, consolidar a cultura da empresa e ganhar respaldo com a entrada da Advent, fundo internacional de private equity, era hora de abrir capital na bolsa de valores. A conferência com o banco UBS ia bem, até que os executivos do outro lado da linha avisaram que precisavam desligar. “Aconteceu alguma coisa estranha aqui na cidade”, disseram eles, lá de Nova York. Laércio e sua equipe ligaram a televisão e viram a cena que até hoje ninguém esquece: um avião atingindo as Torres Gêmeas do World Trade Center. “Aquele sonho que deveria ter seguido na tarde de 11 de setembro de 2001 acabou acontecendo em 2005”, observa o paulistano.

Em vez de ir em frente com o IPO (Initial Coin Offering), eles saíram em road show para conversar com investidores. “Tem uma frase dessa época que marcou bastante”, lembra. “Fomos conversar com um executivo do banco Safra e ele falou: ‘gosto muito da sua empresa e do que vocês estão fazendo, mas, depois do 11 de setembro, precisa ter massa muscular”. Estava dado o novo desafio para a Microsiga. “Voltamos para casa e falamos o seguinte: ‘vamos para a academia. Vamos ficar bombadão’”, lembra Laércio, rindo.

Para isso, a empresa projetou um aumento de dez vezes no faturamento para os oito anos seguintes. A meta era R$ 1 bilhão até 010. “Depois do Tratado de Tordesilhas, agora era o plano ‘patinho em fila’”, diz. Para acelerar o ritmo de crescimento, eles comprariam as três grandes empresas concorrentes – Datasul, Logocenter e RM Sistemas –, começando pela menor. “Definimos uma estratégia para nos aproximarmos dessas empresas”, conta Laércio. A solução foi criar uma associação entre as quatro companhias, no início de 2003, com o objetivo de discutir temas pertinentes a todas elas. “Quando vimos a oportunidade, em 2005, fizemos a proposta para comprar a Logocenter”, diz. “Na mesma operação, também compramos a posição da Advent, e o BNDES entrou como nosso sócio.”

Um ano depois, a estratégia era mudar de nome e criar uma identidade que também agregasse as concorrentes. “Queríamos uma marca independente”, conta. “Não era a Microsiga que estava comprando o mercado. Abdicamos de alguma coisa para criar uma empresa maior. E usamos o mesmo discurso com as demais empresas.” A ideia para o nome TOTVS apareceu enquanto Laércio lia uma matéria sobre a morte do Papa João Paulo II. “Para falar do legado dele, a revista escreveu ‘totvs’, que era tudo, totalidade, todos”, lembra.

De nome novo, a TOTVS abriu o capital em março de 2006. A negociação com a RM Sistemas estava avançada e, um dia depois do IPO, o mercado recebeu a notícia da compra da RM por R$ 164,8 milhões. Já a Datasul foi comprada em 2008, por cerca de R$ 700 milhões. Esses movimentos levaram a TOTVS a aumentar sua participação no mercado de sistemas de gestão empresarial, de 24% para 40%. Na coletiva de imprensa para anunciar a união entre as duas gigantes e até então concorrentes, Laércio levou uma bandeira branca e abraçou o fundador da Datasul, Miguel Abuhab. “Seremos mais fortes juntos”, disse o CEO da TOTVS, na época.

Aquisição atrás de aquisição, a TOTVS voltou a sacudir o mercado em 2015, com a incorporação da Bematech, empresa forte na área de hardware para varejo. Foi nesse mesmo ano que Laércio implementou o que ele chama de jornada de transformação digital. “Você não acorda amanhã e diz: sou digital”, diz. “É uma jornada. Tem que ter um começo, meio e fim.” No caso, o começo foi em julho de 2015 – e a data do fim está marcada para julho de 2019. “Entendemos que precisamos ser uma eterna startup, constantemente se desafiando, criando coisas disruptivas. Uma empresa de tecnologia tem que ser dessa maneira.”

Hoje, Laércio lidera dez mil funcionários espalhados em 41 países. Mas, longe da cadeira da presidência da TOTVS, ele ainda mantém outros hobbies empreendedores. “Gosto de construção civil”, conta. “O primeiro prédio que construí foi o da Microsiga, em 1999.” A nova sede da TOTVS, inaugurada em abril de 2017, também foi obra da Inovalli, empresa da família, comandada por um dos filhos de Laércio. “Outro investimento que gosto muito e fiz há cinco anos foi na Mendelics, um laboratório de análise do genoma humano.”

Longe dos negócios, ele curte pedalar e cozinhar aos fins de semana – desconectado, se assim desejar. “Consigo me conectar e desconectar muito rápido”, garante ele, inclusive do celular. Se uma mensagem chega em um momento de lazer, ele lembra que não resolverá o problema naquele instante. “Precisa ter sangue frio”, diz. “Esse é o grande desafio da sociedade conectada. Minha tese é a seguinte: vivemos nesse mundo de transformação porque as pessoas decidiram se conectar.” Para ele, internet e smartphone serviram apenas como ferramentas. “O fator decisivo foi você se conectar, compartilhar dados, abrir a sua vida. Mas ainda vai existir uma reeducação grande. Ou esqueceremos do que está do nosso lado.”

Camila Balthazar
Camila Balthazar
Editora

Últimas edições

Vladimir Brichta
Tata Werneck
Sophia Abrahão
Daniel Boaventura
Zac Efron
Thomas Troisgros
Guga Kuerten
Grazi Massafera
Mateus Solano
Klebber Toledo
Patrícia Poeta
Gabriel Medina
Juliana Paes
Rodrigo Hilbert
HUGH JACKMAN
Carol Castro
Débora Falabella
Paulo Gustavo
Dan Stulbach
Letícia Spiller
Camila Queiroz
Glenda Kozlowski
Maria Casadevall
Olivier Anquier
Camila Coutinho
Fernanda Lima
Pedro Andrade
Preta Gil
 Jaqueline Carvalho
Taís Araújo e Lázaro Ramos
Cleo Pires
Mauricio de Sousa
Carol Trentini
Star Alliance
Fábio Porchat
Marília Gabriela
Fernanda Paes Leme
Paolla Oliveira
Flávio Canto
Bruna Markezine
Marina Ruy Barbosa
Ingrid Guimarães
 Malvino Salvador
Isabelli Fontana
Deborah Secco
Meninos do vôlei
Miguel Falabella
Daniel Alves
Luiza Valdetaro
Giovanna Antonelli
Wagner Moura
Revista Giovanna Ewbank
Antonio Fagundes
Reynaldo Giane
Fernanda Motta
Paulo  Gustavo
Cláudia Raia
Maria Fernanda
João Paulo Diniz
Tatá Werneck
Fernando Torquatto Avianca
Junior Cigano
Max Fercondini
 Isis Valverde
 Robert Scheidt
Glória Maria
Alessandra Ambrósio
 Alinne Moraes Luiz Tripolli
Sabrina Sato
Tiago Abravanel

Media Onboard

Responsável por todo o entretenimento e mídia de bordo das aeronaves Avianca Brasil, oferecendo diversas plataformas criativas online e off-line para impactar o público alvo.

anuncie
  • Vencemos o 30º prêmio Veículos de Comunicação como revista customizada de 2016
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
Lost your Password?
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
A password will be send on your post
RegistrationLogin
Registration