Banner Top
Domingo, 19 de Novembro de 2017

O MANEZINHO QUE CONQUISTOU O MUNDO

MAIOR TENISTA BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS, GUSTAVO KUERTEN COMEMORA 20 ANOS DO PRIMEIRO TÍTULO DE ROLAND GARROS E SE DEDICA À FORMAÇÃO DE NOVOS CAMPEÕES NO ESPORTE.

Já faz duas décadas que um tenista catarinense esguio, cabeludo e sorridente conquistou Roland Garros pela primeira vez, arrebatou o mundo e escreveu um novo capítulo na história do esporte. Daquele Gustavo Kuerten de 1997, quase nada mudou. A paixão de Guga pelo tênis é a mesma e seu astral continua nas alturas. Somente alguns fios de cabelo branco denunciam a passagem do tempo. Aos 41 anos, o manezinho mais famoso do planeta segue fazendo a diferença pelo tênis brasileiro, só que desta vez fora das quadras.

O encontro com Guga aconteceu nas quadras. Ele nos recebeu no Jurerê Sports Center, em Florianópolis, onde realizou a nona edição da Semana Guga – série de eventos para valorizar e difundir o tênis. E a presença do tricampeão de Roland Garros provou que, mesmo aposentado há 10 anos, sua idolatria continua. Sempre sorridente e prestativo, Guga distribuiu incontáveis autógrafos e selfies, muitas vezes para crianças que nem eram nascidas quando ele chegou ao topo do mundo.

Uma cena ilustra bem todo o carisma e simplicidade que fazem de Guga um ídolo. Enquanto caminhava para mais uma sessão de fotos, ele observou uma garotinha de 13 anos chorando, eliminada da competição. Imediatamente foi consolá-la. “Não chora não, vai. Você está treinando bastante? E a escola? Se o tênis é sua paixão, não desista. Aqui poucos saem com um troféu, mas todo mundo sai vitorioso”, disse, antes de oferecer um abraço para a menina que já parara de chorar.

“A maioria das pessoas acha que vem aquela famosa aposentadoria quando o jogador encerra sua carreira”, comenta Guga, aos risos e com seu autêntico sotaque “manezês”. “Mas é somente o início de muitas atividades.” Guga se adaptou mesmo à nova vida, após pendurar as raquetes em 2008. As atividades do Grupo Gustavo Kuerten (GGK) vão de ações sociais a escolinhas de tênis, do licenciamento de produtos a empreendimentos imobiliários.

A marca Guga Tênis, por exemplo, reúne uma série de atividades voltadas para o fortalecimento do esporte, como escolas para crianças de 5 a 15 anos por todo o país. Há ainda a formação de treinadores e o incentivo a modalidades, como beach tênis e tênis para cadeirantes. Sem falar na Semana Guga, que recebe mais de duas mil crianças todos os anos. “Tenho essa grande missão de transformar o cenário do tênis brasileiro. É o maior sonho da minha vida.”

Aquele Guga sorridente, que ganhou o Brasil (e inúmeros memes) durante a transmissão das Olimpíadas 2016 pela Rede Globo, é autêntico. Ele é um otimista nato. E tem certeza de que, em breve, um brasileiro estará entre os melhores do mundo. “Estamos criando uma atmosfera mais robusta para o tênis. Coisas importantes vão voltar a acontecer. Se num cenário bem mais improvável, aconteceu aqui em Florianópolis, isso tende a se repetir”, confia.

“Não vai demorar tanto assim”, afirma. Diante de tanta animação, pergunto se ele não se sente um pouco frustrado com tantos escândalos entre dirigentes esportivos. “‘Um pouco’ é muita generosidade tua, né?”, diz, rindo, para então revelar um semblante sério, pouco conhecido. “É extremamente frustrante, decepcionante, triste. Mas uma hora o Brasil vai crescer. Tem o Guga Tênis aí para tentar mudar um pouco isso”, finaliza, voltando a ser o bom e velho Guga sorridente.

HERANÇA DE FAMÍLIA

Foi dos pais, a assistente social Alice Thümmel e o atleta amador e empresário Aldo Amadeu Kuerten, que Guga herdou a paixão pelo esporte. Por pouco ele não seguiu a carreira de jogador de futebol (de preferência no Avaí), de tanto cabular as aulas de tênis para ficar batendo bola. Mas o talento com a raquete foi maior. Em uma época em que mal havia quadras de tênis em Florianópolis, Guga e seu irmão mais velho, Rafael, sonhavam ser profissionais, apesar de todas as dificuldades.

Guga tinha oito anos quando seu pai e ídolo faleceu, aos 41 anos, devido a uma parada cardíaca enquanto apitava uma partida de tênis infantil em Curitiba, a poucos metros de onde o filho competia. A perda foi traumática, mas Guga fez das quadras seu canal de comunicação com o pai. Aldo via no filho um potencial quase que premonitório. Um ano antes de falecer, ele pediu para o treinador gaúcho Larri Passos apostar em Guga, argumentando que o menino iria longe.

Na época, Larri recusou. Guga era muito pequeno. Mas o treinador  garantiu que voltaria mais tarde. E cumpriu a promessa. Larri assumiu um projeto em Gaspar, no Vale do Itajaí, e levou Guga, de 13 anos, com ele. Foi o início de uma parceria que mudou a história do tênis brasileiro. Seguindo o treinador durão, o jovem tenista se desenvolveu. Enquanto a família vendia carro e piano para bancar aulas e viagens do garoto-prodígio, Guga colecionava títulos como juvenil.

20 ANOS DE ROLAND GARROS

Em 1993, aos 16 anos, Guga entrou pela primeira vez no ranking mundial, em 847º lugar. Levaria pouco tempo para o menino franzino, dispensado do Exército por ser “fisicamente incapaz”, alcançar o topo. Quando chegou a Roland Garros em 1997, já como número 2 do Brasil, só atrás de Fernando Meligeni, o Fininho, seu objetivo era ganhar duas partidas. O que já seria algo considerável em um dos torneios de tênis mais tradicionais do planeta. Mas o improvável aconteceu.

A primeira surpresa veio quando o material esportivo da Diadora chegou. Como era o último na fila entre os atletas patrocinados, o  catarinense ficou com a sobra. Teve que encarar um espalhafatoso uniforme listrado e degradê em azul e amarelo. “Imagina a minha vergonha. Só turma gozadora lá no vestiário. Apelidamos o uniforme de periquito”, recorda, aos risos. “Joguei contra um sueco        ( Jonas Björkman) e a torcida dele achava que o sueco era eu. Ganhei o primeiro set e eles aplaudindo”, recorda.

As lembranças da campanha de 20 anos atrás ainda são nítidas. “Lembro do momento antes de entrar na quadra contra o (Sláva) Dosed?l, na estreia, até a grande final com o (Sergi) Bruguera.” No saibro francês, a zebra brasileira foi derrubando todos os últimos campeões do torneio. “Meus adversários estavam uns três capítulos da história do tênis na minha frente. E o (Yevgeny) Kafelnikov estava uns três livros adiante”, brinca. Depois de vencer o russo, número 3 do mundo, nas quartas de final, ninguém poderia impedi-lo de ser campeão. Às pressas, a família inteira viajou para Paris e pôde ver de perto o feito do manezinho.

GUGAMANIA

O título de Roland Garros com apenas 19 anos alçou Guga, de um dia para o outro, ao estrelato. Mas, com apoio da família e se refugiando sempre que podia em Florianópolis, o tenista soube evitar euforia e deslumbramento. “Para mim não tinha nada de herói nacional. ‘Estão ficando malucos? Eu não sei nem dirigir que nem o Ayrton Senna, não jogo bola. Herói nacional é o Pelé’.” Mesmo assim, a Gugamania explodiu no país do futebol.

Dono de um estilo de jogo exuberante e agressivo, incomum para o saibro na época, Guga decolou. O jeito extrovertido também conquistou a todos. Ele ainda venceria Roland Garros em 2000 e 2001, além de faturar a Masters Cup, em 2000, sendo o primeiro tenista a superar as lendas Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio – feito que levou Gustavo Kuerten ao 1º lugar do ranking, onde ficou por 43 semanas consecutivas.

Mas o que tinha tudo para ser um longo reinado no saibro foi interrompido precocemente por uma lesão no quadril. Duas  cirurgias e incontáveis horas de fisioterapia não adiantaram. Lutando contra dores que impediam os movimentos mais simples, Guga teve que parar. “Eu saí porque realmente não tinha mais condições. Parei sem chegar ao melhor do meu tênis, isso é evidente”, analisa. Em 2008, aos 31 anos, o manezinho deixou as quadras para entrar para a história.

Mais tarde, ele ganharia o troféu Philippe Chatrier, maior honraria do tênis mundial, e seria o segundo brasileiro a entrar para o Hall da Fama do Tênis, repetindo o feito de Maria Esther Bueno.

RECOMEÇOS

Aposentado, Guga surpreendeu mais uma vez ao entrar na faculdade para cursar Artes Cênicas. “Eu era o patinho feio, né. Já era trintão e a garotada com 17 anos. Mas foi bem bacana. Eu não tinha pretensão de atuar. Era mais pela parte da história, da filosofia. E também uma dica ou outra para usar numa propaganda”, brinca. Ele fez quatro semestres e até encenou adaptações de Hamlet e “Sonhos de uma noite de verão”, de William Shakespeare. Amigos dizem que Guga mandou bem. Infelizmente, não há provas.

Será que a Globo perdeu um ator em potencial? Guga rebate de pronto, com uma gargalhada: “Deixou de ganhar, né? Eu dei uma enrolada lá nas Olimpíadas e já foi o suficiente. Fico só imaginando como seria para tirar o meu sotaque. Aí eu estava morto, aí não tinha como”.

Hoje, o foco de Guga está no seu grupo empresarial, no desenvolvimento de uma base mais sólida para o tênis brasileiro e, principalmente, na família. Ele é casado com a fonoaudióloga catarinense Mariana Soncini e tem dois filhos: Maria Augusta, 5, e Luiz Felipe, 4 anos. “Quero ser parceiro e ajudá-los a enfrentar as encruzilhadas que se apresentam. Às vezes tento ser mais rígido, mas é difícil, porque costumo ser mais brincalhão”, confessa, como se fosse segredo.

Se antes sua família já era seu maior espelho, agora Guga valoriza ainda mais o apoio familiar que recebeu. “O pai sempre foi e sempre será essa figura do super-herói. E a mãe, sozinha com três filhos, foi muito feliz na forma como nos envolveu. Eles são minha referência de criação e formação”, comenta. “Difícil é ser para os meus filhos esse mesmo exemplo que o pai e a mãe foram para mim. Perto disso, ganhar três Grand Slams ficou fácil. É o Grand Slam da vida!”.

FOTOS ·  FERNANDO WILLADINO
STYLING E MAKE VANESSA NETO

Felipe Seffrin
Felipe Seffrin
Colaborador

Últimas edições

Guga Kuerten
Grazi Massafera
Mateus Solano
Klebber Toledo
Patrícia Poeta
Gabriel Medina
Juliana Paes
Rodrigo Hilbert
HUGH JACKMAN
Carol Castro
Débora Falabella
Paulo Gustavo
Dan Stulbach
Letícia Spiller
Camila Queiroz
Glenda Kozlowski
Maria Casadevall
Olivier Anquier
Camila Coutinho
Fernanda Lima
Pedro Andrade
Preta Gil
 Jaqueline Carvalho
Taís Araújo e Lázaro Ramos
Cleo Pires
Mauricio de Sousa
Carol Trentini
Star Alliance
Fábio Porchat
Marília Gabriela
Fernanda Paes Leme
Paolla Oliveira
Flávio Canto
Bruna Markezine
Marina Ruy Barbosa
Ingrid Guimarães
 Malvino Salvador
Isabelli Fontana
Deborah Secco
Meninos do vôlei
Miguel Falabella
Daniel Alves
Luiza Valdetaro
Giovanna Antonelli
Wagner Moura
Revista Giovanna Ewbank
Antonio Fagundes
Reynaldo Giane
Fernanda Motta
Paulo  Gustavo
Cláudia Raia
Maria Fernanda
João Paulo Diniz
Tatá Werneck
Fernando Torquatto Avianca
Junior Cigano
Max Fercondini
 Isis Valverde
 Robert Scheidt
Glória Maria
Alessandra Ambrósio
 Alinne Moraes Luiz Tripolli
Sabrina Sato
Tiago Abravanel

Media Onboard

Responsável por todo o entretenimento e mídia de bordo das aeronaves Avianca Brasil, oferecendo diversas plataformas criativas online e off-line para impactar o público alvo.

anuncie
  • Vencemos o 30º prêmio Veículos de Comunicação como revista customizada de 2016
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
Lost your Password?
RegistrationLogin
Sign in with social account
or
A password will be send on your post
RegistrationLogin
Registration