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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

CERCADA POR VULCÕES A 2.850 METROS DE ALTITUDE, QUITO É A PORTA DE ENTRADA PARA DESCOBRIR AS MARAVILHAS DE UM PAÍS PLURAL QUE FICA NO CENTRO DO MUNDO, DIVIDINDO OS DOIS HEMISFÉRIOS. NOS DEBRUÇAMOS NA TRADIÇÃO ANDINA MULTICOLORIDA, NAS INFINITAS IGREJAS QUE LHE RENDERAM O APELIDO DE "CONVENTO DA AMÉRICA”, NO VERDE INTENSO DA REGIÃO AMAZÔNICA E NO AR COSMOPOLITA TROPICAL DA CIDADE DE GUAYAQUIL, SEM ESQUECER DO SONHO NATURAL PULSANTE DAS ILHAS GALÁPAGOS.

A primeira luz matutina iluminava os preservados casarios coloniais, em sintonia com os passos lentos de quem caminha a 2.850 metros acima do nível do mar. Se por um lado o sol revelava uma das mais antigas cidades da América do Sul, por outro aplacava o friozinho insistente daquela manhã de verão. Muito se diz que o conjunto arquitetônico tombado pela Unesco em 1978 é o maior patrimônio de Quito. Acrescento que a beleza da cidade só é tamanha por conta da localização geográfica, em meio a um corredor de 12 vulcões. E pela linda luz que sobre ela se derrama nas alvoradas e nos entardeceres.

A capital carrega em si um pouco de cada canto do país e sintetiza a essência equatoriana. Para além de ocupar o espaço da linha imaginária que divide o planeta em dois hemisférios, o país descortina uma coleção de diversidades de sua faceta andina à litorânea, temperada pela complexidade amazônica e por toda a mística de suas Ilhas Galápagos. Talvez seja a partir do centro de Quito, totalmente reformado em 2010 ao custo de US$ 600 milhões, que o visitante comece a entender o emaranhado de singularidades do Equador.

Mais antiga dentre as 40 igrejas da capital, a Igreja de São Francisco começou a ser construída em 1534, mesmo ano de fundação da cidade. Em certa altura da história, ao visitar a cidade pela primeira vez, lá pelos idos de 1822, consta que o revolucionário general Simón Bolívar teria dito que "Quito é o convento da América”.

Provas do poder da Santa Sé, mas também de sua delicada complexidade, podem ser vistas no Museu Franciscano Frei Pedro Gocial, um dos principais de arte sacra de todo o continente. Funciona no mesmo prédio da igreja e guarda pinturas, esculturas e obras têxteis que expressam o talento dos artistas quiteños entre os séculos 16 e 18.

Passa o tempo e a independência, em 1822, mas a fé católica dos espanhóis e sua herança ainda se revelam nos 52 quilos de ouro que adornam o interior da Igreja da Companhia de Jesus, cartão-postal do centro histórico. Como se dialogassem com o exterior ensolarado, os brilhantes ornamentos da mais elaborada igreja de todo o Equador parecem justificar os 160 anos até sua conclusão.

Um desavisado que chegue ao plácido centro histórico numa manhã qualquer jamais desconfia que há 2,23 milhões de habitantes em toda a cidade. Há algo de provinciano e pacato em Quito, e isso é delicioso. Com pinta de pracinha interiorana, a Plaza Grande abriga o Palácio do Governo, a discreta catedral e o elegantíssimo Hotel Plaza Grande, endereço certo de autoridades e celebridades em visita ao país. A cada minuto a luz tinge com mais vigor as colunas do prédio colonial onde o presidente Rafael Correa despacha desde 2007, após duas reeleições.

Descobrir as dez praças que se espalham pelo centro antigo da capital é encontrar-se com o passado, mas também com a natureza. Como em um jogo de esconde-esconde entre prédios de estilo barroco e neoclássico, o vulcão Pichincha se revela em momentos oportunos, compondo uma paisagem única. No horizonte da Praça de São Francisco, o vulcão é um dos protagonistas, e seu melhor ângulo é do alto do Hotel Casa Gangotena, excelente para contemplar o pôr do sol e, melhor ainda, para jantar. A cozinha sofisticada apresenta releituras modernas de clássicos equatorianos pelas mãos do chef Andrés Dávila, como o bolinho de lhama com coentro e goiabada e o ceviche de polvo grelhado marinado em suco de tangerina.

A culinária, por sinal, é ponto alto de uma imersão sensorial pelo país. Como em toda a Cordilheira dos Andes, milhos e batatas de múltiplas formas e tamanhos enchem de matizes os mercados e as criações gastronômicas. Embora o Peru carregue a fama pelo ceviche, equatorianos  reivindicam para si a invenção do prato. Controvérsias à parte, venha com a certeza de encontrar o peixe cru marinado preparado com muito esmero – e acompanhado por pipocas.

Em sua porção costeira, ao longo do Oceano Pacífico, o Equador revela o frescor de seus frutos do mar, e também as cores e os sabores de frutas como o piñuelo, que lembra uma pamonha azedinha, e o lulo, uma espécie de tomate doce. Não deixe de provar também o hornado, clássico de Quito preparado com carne de porco marinada por três dias e cozida no forno a lenha, servido com omelete de batata, torresmo e molho agridoce de tomate e cebola.

Igualmente original da terra, só que no campo das artes, outro nome merece muita atenção. Nascido em Quito, o artista Oswaldo Guayasamín (1919-1999) morou grande parte de sua vida na região do bairro de Bellavista. Ao lado de sua antiga casa, também aberta à visitação, foi erguida a Capilla del Hombre, suntuoso e moderno museu para abrigar a obra do mais importante pintor e escultor equatoriano do século 20, cujos traços são frequentemente associados aos de Pablo Picasso. Não bastasse a surpresa com o trabalho do artista, o lugar oferece uma vista espetacular da cidade.

Outro icônico panorama fica encarrapitado num dos morros mais altos de Quito. Os 42 metros de bronze da estátua da Virgem do Panecillo, mais conhecida como Virgem de Quito, a tornam simultaneamente símbolo de fé e ícone do país. Será inevitável o paralelo com a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, uma vez que os dois monumentos têm a grandiosidade da paisagem em comum. Um táxi desde o centro leva menos de 10 minutos até lá e custa cerca de US$ 7.

Quase uma covardia com as outras vistas, a do alto Teleferiqo é literalmente de tirar o fôlego. A partida é do extremo oeste da cidade e, após um percurso de 10 minutos, alcança-se a mais impressionante vista de Quito, a 4.050 metros de altitude. De lá se observam as principais torres de igrejas, praças e os vulcões Pichincha e Antisana. Além deles, destaca-se o Cotopaxi, um dos mais altos e ativos vulcões do mundo, com seus 5.897 metros. Aí, sim, tem-se a certeza de estar de fato cercado por eles.

No horizonte também não será difícil notar a Basílica del Voto Nacional, de 1874, cujo desenho foi inspirado na gótica Notre Dame, de Paris – inclusive as gárgulas, que viraram iguanas e tartarugas na versão equatoriana. O acesso é livre, mas paga-se US$ 4 para subir até as torres e, mais uma vez, ter uma vista espetacular, inclusive da Virgem. No quarto andar, fica um agradável café para uma pausa providencial.

E se tudo o que salta à vista tem, de alguma maneira, o dedo dos espanhóis, cabe ao visitante descobrir também o que havia por essas paragens antes da chegada dos colonizadores. Principal coleção de arte pré-colombiana do país, o Museu Casa del Alabado reúne centenas de peças, como estátuas, potes de cerâmica, utensílios de cozinha e itens de culto de civilizações pré-hispânicas, como cañari, papo e puruhá. Assim como nos festejados museus históricos de Lima e de Bogotá, os vestígios desses povos reacendem o entendimento da profundidade cultural equatoriana.

Nos entornos de Quito, concentram-se os principais marcos da Linha do Equador, sendo o mais famoso o da Ciudad Mitad del Mundo, parque temático a 14 quilômetros do centro. Reúne playgrounds, lojas de souvenirs, comidas típicas, e rende a clássica foto com um pé em cada lado do planeta. Bem ao lado, o Museo Intiñan proclama estar – ele, sim – sobre a divisão do globo. Um guia acompanha os visitantes em divertidos experimentos interativos, como observar a água descendo em sentido horário no Hemisfério Sul, para o lado oposto no Norte e verticalmente sobre a divisão. Risadas são garantidas ao tentar equilibrar um ovo de pé sobre um prego.

A duas horas do centro histórico de Quito, a cidade de Otavalo é a principal da província de Imbabura. De origem indígena e com 100 mil habitantes, promove aos sábados o maior de todos os mercados andinos. Ocupando organizadamente mais de 10 quarteirões, comerciantes de mais de 4 mil barracas vendem de frutas a louças, de roupas a temperos, de porcos a joias.

ALÉM DOS ANDES

Para entender o Equador de maneira multidimensional, é importante também ultrapassar os limites da maior cordilheira do continente. Contraponto de respeito ao espírito das montanhas, Guayaquil é motor econômico e maior metrópole do país, com 3,1 milhões de habitantes; e também a mais surpreendente. Localizada às margens do Rio Guayas e a apenas 44 quilômetros do Oceano Pacífico, mescla ares cosmopolitas e tropicais – o calor úmido lembra, e muito, o do litoral brasileiro.

Numa sequência de parques, praças, cinema e museu, o complexo de lazer Malecón 2000 conecta o sul e o norte da cidade e se torna ponto privilegiado para entendê-la. A caminhada começa no Palácio de Cristal, antigo mercado de 1905 transformado numa movimentada praça de eventos, com feiras de livros e artesanato. Grupos musicais também se apresentam de graça aos fins de semana.

Ao longo dos 2,5 quilômetros do malecón – ou calçadão, em bom português –, há diversos monumentos em homenagem aos líderes que libertaram o Equador dos colonizadores espanhóis. Durante a caminhada, prepare-se para se deparar com alguns dos protagonistas da Independência: Simón Bolívar, San Martín e José Joaquín de Olmedo, o mais ilustre cidadão de Guayaquil. Com um acervo que reúne mais de 55 mil obras de arte e peças arqueológicas – apenas 850 estão expostas –, o imponente Centro Cultural Simón Bolívar vale a visita.

Em 1537, às margens do Guayas, o fundador da cidade, capitão Francisco de Orellana, ergueu o Fuerte La Planchada contra os piratas ingleses e holandeses que subiam rio acima. Assim nasceu o fotogênico bairro de Las Peñas, um daqueles lugares delicados, com um quê de vila colonial. A calle principal (Numa Pompilio Llona) lembra as ruazinhas de Ouro Preto (MG). Entre lojas de artesanato e restaurantes acolhedores, permita-se entrar no ateliê do artista plástico Edgar Calderón, cujas telas retratam o colorido casario da região em um estilo quase impressionista.

À noite, o cenário se transforma: os bares abrem as portas e a região se enche de vida boêmia. A localização entre o rio e o mar também se reflete na gastronomia. A cozinha do restaurante Lo Nuestro propõe uma experiência intensa com o locro de camarón, um creme de camarão preparado com milho, e a corvina apanada con verde, uma considerável posta desse peixe servida com abacate.

Diante da pomposa Catedral Metropolitana, erguida em estilo neogótico, o Parque Seminário virou atração por outro motivo. Em poucos instantes, o visitante descobre o porquê do apelido Parque de las Iguanas. Cheio pelos dóceis e despreocupados répteis, o lugar é divertido para observá-los. Fique longe dos bancos sob as árvores: lá do alto, os bichos podem enviar presentes indesejáveis aos visitantes.

NATUREZA (QUASE) INTOCADA

As iguanas do continente fazem lembrar as primas marinhas das Ilhas Galápagos, assim como as famosas tartarugas centenárias, entre outros animais endêmicos das ilhas – distantes mil quilômetros ou a 1h30 de voo partindo de Guayaquil. Após Charles Darwin ter feito por lá observações que o ajudaram a consolidar sua teoria da evolução das espécies, o lugar alcançou importância mundial sem paralelos. E realmente o arquipélago formado por 131 ilhas vulcânicas principais e biodiversidade absurda é um daqueles cantinhos que nos fazem perceber como apenas mais uma espécie que se desenvolveu sobre a Terra.

Galápagos é um destino caro, mas uma alternativa menos conhecida dá um gostinho de sua fauna impressionante. A apenas três horas de carro de Guayaquil, a pequena vila pesqueira de Puerto Lopez oferece embarque até a Isla de la Plata, em passeios de barco que duram o dia todo. No caminho, entre julho e novembro, baleias jubarte se exibem em saltos imprevisíveis. Basta uma trilha de uma hora para avistar fragatas e atobás de patas azuis, aves que ajudaram a fazer a fama de Galápagos.

Além disso, em um breve snorkeling, o mundo embaixo d’água se abre para arraias-manta e centenas de peixes coloridos. Uma amostra significativa e pertinho do continente. Da mesma maneira, o que fica para o viajante que percorre o Equador sob várias perspectivas é a certeza de vivenciar um país com fortíssimo potencial de surpreender e que vai muito além da divisão entre os hemisférios Norte e Sul ou a geografia de praias e montanhas. O Equador se atreve a ser uma bela definição de pluralidade.

POR. FELIPE MORTARA

Felipe Mortara
Felipe Mortara
Colaborador

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Responsável por todo o entretenimento e mídia de bordo das aeronaves Avianca Brasil, oferecendo diversas plataformas criativas online e off-line para impactar o público alvo.

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