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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

VIDA, VENTO, VELA

OS VENTOS DO CEARÁ FAZEM PARTE DA PAISAGEM. OS BARCOS DE PESCADORES À BEIRA-MAR DE FORTALEZA E AS TANTAS VELAS DE KITESURFE VOANDO SOBRE AS ÁGUAS DE CUMBUCO ESTÃO SEMPRE LÁ, COLORINDO O CENÁRIO, MAS O LOCAL TAMBÉM RESERVA BOAS NOVIDADES NAS CENAS CULTURAL E GASTRONÔMICA.

As velas do Mucuripe vão sair para pescar. Vou levar as minhas mágoas para as águas fundas do mar.” Assistindo ao pôr do sol em Mucuripe, é difícil não se lembrar dos versos da bela canção dos cearenses Fagner e Belchior. A composição foi lançada em 1972. Hoje, 45 anos depois, quando a gente vê os barcos de pescadores na praia, logo pensa em “Vida, vento, vela, leva-me daqui”, outro verso da canção. Mas não há vontade alguma em sair dali.

O sol se pondo no Oceano Atlântico, com jangadas e barcos ancorados compondo o cenário, é um dos programas mais bacanas de Fortaleza. E o que sempre foi bom agora está melhor. O Mercado do Peixe, no final da Avenida Beira-Mar, na Ponta de Mucuripe, passou por uma grande reforma e foi reaberto ano passado. Ficou mais bonito e organizado. Cerca de 40 boxes vendem peixes e frutos do mar frescos. É só comprar e levar para ser preparado em um dos restaurantes do mercado. São todos simples, mas com concorridas mesas de frente para o mar.

Mesmo que a ideia seja somente ver o pôr do sol, sem disputar mesa no Mercado do Peixe, chegue antes (entre 16h e 17h) para apreciar com calma o céu ser tingido de laranja. Desde julho, nos três primeiros domingos do mês, o espetáculo acontece ao som de “Mucuripe” tocada por um sanfoneiro em uma jangada. Dependendo da maré, a jangada fica mais perto ou mais longe do Mercado do Peixe. Nada que caixas de som não resolvam.

O programa pode continuar na movimentada Feira de Artesanato da Beira-Mar, bem perto, na Praia do Meireles. As dezenas de barracas abrem a partir do pôr do sol e funcionam até tarde. Se quiser emendar com o jantar, o próprio Mercado do Peixe fica aberto diariamente até as 22h. Na Beira-Mar, que concentra  vários hotéis, há também muitas outras opções de restaurantes.

Um clássico de Fortaleza é o Coco Bambu, com vasto cardápio de frutos do mar, três endereços na cidade e filiais em 11 outros estados, além do Distrito Federal. Agora o restaurante se prepara para levar a cozinha de Fortaleza para Miami Beach.

Além do Mercado do Peixe, as orlas das praias de Mucuripe e Meireles também foram revitalizadas. Ano passado, a prefeitura refez o calçadão, mudou a iluminação e restaurou a estátua de Iracema, a primeira da cidade, de 1960. Há ainda um novíssimo letreiro com a palavra Ceará, com luzes coloridas à noite. O calçadão tem bastante movimento de moradores e visitantes, o dia todo. A ideia é estender a reurbanização até a Praia de Iracema, um dos cartões-postais da capital.

Mucuripe, Meireles e Iracema formam a orla central de Fortaleza. Na Praia de Iracema, diferentemente das outras duas, é visível a decadência, com muitos lugares fechados. A bela Ponte dos Ingleses, que na realidade é um píer também com vista para o pôr do sol, mostra sinais de má conservação. Dá para passear por ali, mas fique atento. Se for o último domingo do mês, confira se há alguma apresentação musical. Um projeto da prefeitura pretende levar o pianista cearense Felipe Adjafre para tocar na Ponte dos Ingleses ao entardecer.

O que não muda em Iracema há 30 anos é o Pirata Bar, autoproclamado o local da “segunda-feira mais louca do mundo”. Reunir até 2.500 pessoas para dançar forró em uma noite de segunda-feira realmente merece registro. Em frente ao Pirata fica a Lupus Bier, endereço dos mais famosos shows de humor da capital cearense, uma especialidade local.

Saindo do litoral, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, pertinho da Praia de Iracema, já viveu dias melhores.  A programação cultural continua boa (somente em 2016 o centro recebeu 1,7 milhão de visitantes), e vale dar uma olhada na agenda de shows e exposições, porém bares e restaurantes que mantinham a redondeza movimentada, principalmente à noite, estão fechando por conta da falta de segurança e de conservação urbana da cidade de 2,6 milhões de habitantes.

Mas há também mais notícias boas na área cultural. Fortaleza ganhou em 2017 um sensacional Museu da Fotografia, na Varjota, bairro que lembra a paulistana Vila Madalena. O lugar é repleto de bares e restaurantes. O museu fica em frente a uma sorveteria de sucesso, a Bellucci Gelateria, e o café Empório Brownie, igualmente famoso.

O Museu da Fotografia é projeto do empresário cearense e colecionador de arte Silvio Frota. O prédio, da década de 1980, sediava uma escola de idiomas. Passou por um retrofit para virar um belo centro cultural. O acervo de duas mil obras será exposto em mostras que vão mudar todo ano, com cerca de 450 fotos cada. Paralelamente às exposições, o espaço desenvolve diversos projetos culturais nas comunidades locais, principalmente com crianças carentes.

A curadoria da mostra inaugural foi assinada por Ivo Mesquita, que trabalhou na Pinacoteca de São Paulo. Há obras incríveis, de fotógrafos nacionais e estrangeiros, como a “Garota afegã”, foto de Steve McCurry de 1984 que saiu na capa da revista “National Geographic” e da qual há apenas 25 cópias em todo o mundo. Foi esta foto que deu início à coleção.

Entre os trabalhos de fotógrafos brasileiros, não deixe de ver a série do cearense Chico Albuquerque registrando as filmagens de “É tudo verdade” (1942), documentário inacabado  de Orson Welles. Na saída, a ótima loja é uma perdição para quem gosta de fotografia. Quem sabe você leva para casa um exemplar com as famosas fotos em preto e branco dos jangadeiros de Mucuripe, feitas pelo centenário Chico Albuquerque (1917-2000) na década de 1950, para folhear toda vez que sentir saudades daquele cenário de pôr do sol.

DENOMINAÇÃO DE ORIGEM CEARENSE

Gastronomia é sempre ponto alto de uma viagem pelo litoral cearense, principalmente para quem gosta de peixes e frutos do mar frescos. Fortaleza vê surgir uma leva de restaurantes modernos, que se preocupam com sustentabilidade, em valorizar os produtos e produtores locais e cuidar da comunidade. Sem descuidar da cozinha: pratos tradicionais têm uma releitura contemporânea e são bonitos, gostosos e bem servidos.

O Moleskine Gastrobar, na Varjota, perto do Museu da Fotografia, é um destes restaurantes. Entre os destaques do cardápio, não deixe escapar o atum selado com crosta de gergelim acompanhado de tartar de manga, nem os camarões crocantes. A carta de drinques também merece ser olhada com atenção. No segundo andar do sobrado, fica o Sótão, dos mesmos donos. É um aconchegante clube de jazz e bossa nova, com paredes em tijolos aparentes, mesas em madeira escura, poltronas e sofás revestidos em couro, uma linda adega com piso de vidro e cardápio contemporâneo ainda mais elaborado. Muito bom ouvir um dos donos, Felipe Lima, falar com igual entusiasmo sobre os pratos novos do menu, como sirigado (peixe local) com aspargos, e os leilões de arte com renda revertida para projetos sociais.

O Mar Menino, na Aldeota, mais para o lado do Centro,  segue a mesma linha. A decoração clean é moderna, com piso de cimento, móveis de madeira clara e fotos em preto e branco nas paredes. Chef e proprietário, Leo Gonçalves é publicitário e fez carreira em São Paulo. Começou a fazer aulas de culinária e deixou a publicidade de lado para estagiar em restaurantes famosos, como o Central, em Lima, considerado um dos melhores do mundo. Chegou a Fortaleza pronto para cozinhar profissionalmente. Assim como no Moleskine, a carta de drinques também merece ser conferida.

No cardápio, na maioria dos pratos, Leo sabe exatamente de onde veio cada um dos ingredientes, como o caranguejo desfiado com feijão verde na manteiga de garrafa e cogumelos (estes de Guaramiranga) e o camarão em molho de moqueca, com farofa de maracujá e arroz de castanhas. “Faço uma cozinha DOC, de denominação de origem cearense”, diz Leo, brincando com a sigla de denominação de origem controlada. Não pule a sobremesa. O cheesecake com queijo coalho e goiabada deixa as melhores lembranças.

DAS CASTANHAS AO CROCHÊ DE GRIFE

A Feira de Artesanato na Beira-Mar, que funciona à noite no calçadão da Praia do Meireles, é um dos melhores lugares de Fortaleza para comprar produtos locais. Durante o dia, uma opção é o Emcetur (Centro de Turismo do Ceará), no Centro, na antiga Cadeia Pública. O prédio histórico é de meados do século 19, e a cadeia foi desativada cerca de cem anos depois, em meados do século 20.

Bem conservado, o Emcetur tem vista para o mar e dezenas de lojas de toalhas, bolsas, objetos e literatura de cordel. No  pátio ao ar livre, há um quiosque do Flavio’s Castanhas, com cajuína, rapadura de caju e de castanha, cocada e, claro, castanhas naturais ou com gergelim. O local é limpo e seguro, mas fique atento ao chegar e sair porque o entorno é uma área da cidade bem degradada.

Para um produto de design local único e mais moderno, o ateliê Catarina Mina tem lindíssimas bolsas de crochê criadas pela designer Celina Hissa e feitas por artesãos de Itaitinga. O ateliê fica na rua do restaurante O Mar Menino, a Barão de Studart, na Aldeota. Não são baratas, mas a empresa tem planilhas de custo abertas e você sabe exatamente o quanto está pagando por cada fase do processo de produção. Num processo de valorização da mão de obra local, cada bolsa vem com o nome da pessoa que fez.

O COLORIDO DOS VENTOS

Fortaleza é o início de um roteiro para outros pontos do litoral cearense, de praias de águas mornas e onde o sol brilha praticamente o ano todo. Para quem tem menos tempo, uma opção perto da capital é Cumbuco, o Havaí dos kitesurfistas, a 30 quilômetros do Centro na direção oeste. A praia é extensa, com uma larga faixa de areia repleta de coqueiros. O mar não tem aquela cor espetacular de Fortaleza, mas as velas de kite proporcionam um colorido único.

O passeio de buggy pelas dunas é dos mais divertidos. Cada veículo leva até quatro pessoas, além do motorista, e o roteiro pode ter algumas variações. Como as dunas se movem com mais intensidade no segundo semestre, por conta da temporada de ventos fortes, novas trilhas são mapeadas, principalmente  entre setembro e outubro. De um modo geral, os passeios que partem da vila têm duração de duas horas e fazem três ou quatro paradas.

A primeira delas é na Lagoa de Parnamirim, onde há um esquibunda. Um tíquete único dá direito a numerosas descidas. Escorregar é fácil. O que exige disposição física é voltar para o topo da duna pela “escada rolante” formada por pneus. Quem não quiser se aventurar areia abaixo admira o belo cenário das dunas brancas contrastando com a lagoa azul.

Em seguida há mais uma ou duas escalas contemplativas. A vista para a Lagoa do Banana é especialmente bonita. Ali chama a atenção nesta temporada dois cajueiros soterrados até a copa. As árvores, que teriam dez metros de altura, estão nesta situação há dois anos. Em 2017 choveu e os cajueiros voltaram a florir. Há quem aposte que vão dar frutos em breve.

A última parada é no animado parque de diversões conhecido como Águas Cristalinas. Ali há uma espécie de toboágua, no qual um plástico azul, molhado, é estendido duna abaixo. A descida é de bruços em uma prancha de bodysurf e termina nas águas do Rio Cauípe. A tirolesa acaba no mesmo lugar. Para voltar do rio para o topo da duna há um sistema de roldanas. Uma prancha, que lembra uma jangada, é puxada pelas roldanas até a margem. Uma vez na areia, outro sistema de roldanas leva o carrinho até o topo. Como no esquibunda, basta um tíquete para se jogar no rio quantas vezes a disposição permitir.

Não faz parte do roteiro oficial do passeio pelas Dunas do Cumbuco, mas, se estiver na temporada de ventos, de julho a dezembro, vale negociar com o motorista para estender o roteiro até a Barra do Cauípe. Ou ir por conta própria se estiver com carro alugado. Mesmo quem nunca praticou kite na vida se encanta com o colorido das velas. Em uma tarde de segunda-feira de agosto, deu para contar mais de 50, o que é considerado um número pequeno, característico do início da temporada.

Na barra do rio é possível ter aulas na Escola de Kite do Cauípe e conversar com pessoas como Estefânia Rosa. Cearense campeã mundial de kitesurfe, ela tem uma escolinha informal na qual dá aulas gratuitas de kite e de inglês para as meninas da região, sem ganhar nada por isso. “O kite mudou a minha vida. Quem sabe muda a vida delas também. Quero que elas saibam que são meninas superpoderosas, dar a elas uma nova perspectiva.”

ONDE FICAR

CARMEL CUMBUCO RESORT
Charmoso e compacto, com 88 quartos, o Carmel é uma boa opção para quem viaja com crianças ou quer apenas descansar uns dias na praia. As áreas comuns do resort são lindamente decoradas. A piscina de proporções generosas é bem bonita. O restaurante, aberto apenas para hóspedes, também é gostoso. Não perca o filé de sirigado, peixe local parecido com badejo, em diversas preparações. Os quartos decepcionam um pouco se comparados com o capricho das áreas comuns, mas nada que comprometa. Todos são amplos e com varanda. O mesmo grupo tem também dois hotéis em Fortaleza.
www.carmelhoteis.com.br

VILA GALÉ CUMBUCO
O grupo português tem um resort all inclusive em Cumbuco, com 416 quartos e 49 chalés. Seu projeto arquitetônico, com telhas brancas, faz com que, de longe, o resort fique camuflado na paisagem formada pelas dunas.
www.vilagale.com

POR · BY CARLA LENCASTRE
FOTOS · PHOTOS FLAVIO TERRA

Carla Lencastre
Carla Lencastre
Colaboradora
Carla Lencastre é jornalista especializada em estilo de vida, gastronomia, turismo e viagens. Editou por uma década a revista e o site de viagens do jornal carioca “O Globo”.

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