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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

PLANOS DINÂMICOS EM COMPASSO COM REALIZAÇÕES

PRESIDENTE DO GRUPO SAMSONITE PARA O MERCOSUL DESDE 2015, ANNA CHAIA SEMPRE ESTUDA O PRÓXIMO PASSO PROFISSIONAL. “JÁ DEIXEI DE ACEITAR OPORTUNIDADES POR ACREDITAR QUE NÃO ESTAVA PREPARADA”, CONTA A EXECUTIVA, QUE COMEÇOU NA AMERICAN EXPRESS E PASSOU POR UNILEVER, NATURA, WHIRLPOOL, SWAROVSKI, L’OCCITANE E ADVENT.

Anna Chaia já estava no sexto ano da escola quando descobriu que Papai Noel não existe. “É o nosso pai fantasiado”, disse uma colega, encerrando ali o ciclo de 11 anos em que ela acreditara que sua boneca era um presente do senhor de barba branca. “Acho que naquela época não tinha tanta influência externa. Hoje é mais difícil encontrar uma criança que acredite em Papai Noel até essa idade”, comenta Anna, rindo e lembrando dos tempos da infância em Ribeirão Preto, quando o município no interior paulista ainda estava longe de chegar aos quase 600 mil habitantes de hoje em dia.

Mas a passagem pela terra da Choperia Pinguim foi tão breve quanto os períodos anteriores em Santos, Rio de Janeiro ou São Borja. A família de três filhos mudava de endereço com frequência, sempre acompanhando as transferências do pai militar. “No começo eu sentia o impacto das mudanças. Mas depois é o que eu falo: você cria uma self defense pra tudo na vida”, diz Anna, usando a expressão em inglês para explicar que ela aprendeu a se defender. “Você se  habitua e já até pergunta qual vai ser a próxima cidade.”

Se na escola ela era a menina tímida que só tirava nota alta e morria de vergonha de resolver um exercício na lousa, em casa era a mais agitada. “Eu era sapeca”, diz. “Era a que mais caía de bicicleta, queria ser bandeirante, ir pra mata.” A chave virou na adolescência – e uma Anna “falante” apareceu, como ela mesma diz, com a voz sempre tão animada que fica difícil imaginar alguma introspecção. Ainda assim, seu sonho profissional parecia um pouco solitário: ela queria virar engenheira de alimentos e trabalhar no laboratório do Instituto de Tecnologia e Alimentos (ITAL), em Campinas, onde a família finalmente fincou raízes.

Mas sua versão expansiva falou mais alto. A educação rígida do pai militar não permitia excessos consumistas. “Ele falava: ‘o dinheiro que a gente tem é para a escola. Depois a gente vê o que sobra’”, lembra Anna. “Mas nunca sobrava.” A saída para atender o desejo adolescente de consumir e viajar foi conciliar estudo e trabalho. Aos 14 anos, Anna virou vendedora em uma loja de produtos esportivos importados. “Era uma loja de bairro perto da minha casa. Uma coisa bem de interior mesmo”, explica. A desenvoltura no trabalho ao longo de quatro anos encantou o dono, que já planejava promovê-la a subgerente. A essa altura, porém, os planos de Anna já eram outros.

“É muito difícil fazer escolha vocacional com 17 anos”, diz. “Acho tão cedo. E sem referências.” O namorado da época e atual marido já cursava administração em São Paulo. Foi ele quem a influenciou a mudar de área, desistindo da ideia da engenharia e seguindo algo ligado a comunicação. “Ele dizia que minha habilidade com vendas era ótima. E eu pensava: ‘aquela pessoa tão tímida?’”. Ao olhar aonde chegou hoje, a executiva não tem dúvidas: “Não me vejo em um laboratório. Provavelmente não seria feliz.”

A tal felicidade deu as caras em um enorme pensionato de freiras ao lado de 300 outras mulheres que também deixaram suas cidades para fazer faculdade na capital paulista. No segundo semestre das aulas de marketing na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Anna viu um anúncio de estágio em marketing na American Express pendurado no mural. “Fui muito bem na dinâmica de grupo”, diz. “Acho que o fato de eu já ter trabalhado, de não ser deslumbrada, ajudou.” Um ano e meio após a contratação – e ainda sem o diploma de conclusão do curso –, ela conquistou a vaga de assistente de marketing para lançar o Gold Card no Brasil.

“Eu sempre fazia mais do que me pediam. Se me pediam A, eu fazia A, B e C. Desde pequena, eu queria tirar 11 na prova”, diz Anna, observando que talvez esse fosse o mecanismo inconsciente da timidez para se destacar na multidão. A mesma autocobrança valia para definir cada passo da sua própria carreira. Ela descobriu rápido que queria seguir o caminho corporativo e, por isso, precisava ampliar seu leque de experiências.

“Trabalhar com serviços é muito bacana, mas será que não é um pouco limitador para o começo de carreira? Será que eu não devo tentar um pouco de produto de consumo?”, se questionou na época. Com o diploma de marketing fresco no currículo e uma bagagem de três anos e meio na American Express somada aos quatro anos de vendedora na loja, Anna se destacou entre os milhões de candidatos ao programa de trainee da Unilever. “A maioria da turma que passou era inexperiente”, comenta. Antes mesmo de terminar o período completo do programa, ela assumiu uma gerência de produtos. “Naquela época a rotatividade nas empresas não era tão alta. Hoje já mudou muito. Em geral um trainee vira assistente, analista ou coordenador, antes de chegar a um cargo gerencial”, explica.

Anna é movida a ambição. “Acho que às vezes o brasileiro confunde ambição com ganhar dinheiro fácil”, diz. “Mas é admirável querer crescer e evoluir, desde que você faça isso de maneira honesta.” A vontade de comprar a casa própria também ajudava. Após ver a dificuldade do pai em adquirir o primeiro imóvel aos 55  anos, ela acelerou sua própria história e pegou as chaves de um apartamento aos 23 anos. “Depois disso, meu marido e eu pensamos em comprar uma casa em algum momento da vida, mas primeiro tínhamos que sonhar em como pagar a dívida daquele apartamento”, lembra. A nova casa chegou alguns anos depois – e a família mora lá até hoje. “Não sou aquela pessoa que precisa ter casa em Miami”, observa. “Prefiro ajudar quem está próximo da gente, economizar dinheiro para viajar e ter uma vida boa, sem ostentação.”

O plano traçado para sua carreira também incluía uma expatriação. “Eu queria trabalhar fora do Brasil”, diz. “Uma vez, meu chefe, que era inglês, pediu para eu listar alguns países que eu acharia interessante ir. Aí passou um tempo e ele surgiu com uma oportunidade para liderar o negócio de skin care para América Latina.” Mas a vaga era no México – e o México não estava na sua lista. Anna até passou um período no escritório da Unilever em Cuernavaca, a duas horas da Cidade do México, mas recusou a oferta. “Cuernavaca era bem interior na época. Meu marido estudou a possibilidade de ser expatriado também, mas a empresa em que ele trabalhava tinha escritório na capital. Íamos ficar os dois sozinhos, cada um em uma cidade.”

Esse episódio a levou ao próximo passo da carreira. “Comecei a procurar uma alternativa para continuar no Brasil, mas crescendo profissionalmente”, lembra. “Eu queria assumir uma unidade de negócios, algo que englobasse outras áreas além do marketing.” Em 1997, depois de quatro anos na empresa global de bens de consumo, Anna fez um movimento ousado. “Você está saindo de uma Unilever para ir para uma empresa nacional pequena? Quem é a Natura?”, ela ouvia como resposta ao comentar que estava assumindo uma gerência de negócios na Natura, que envolvia marketing, finanças e supply chain.

“E a Natura virou o que virou!”, comemora Anna. “Era uma empresa pequena, mas que incentivava muito nosso lado empreendedor. Era fascinante. Você tinha um senso de realização o tempo todo.” Anna desbravou outros países, buscou fornecedores na França, na Itália e na Argentina, viu chegar a primeira máquina hightech para fabricar batons, comemorou a conquista do primeiro prêmio de melhor empresa do ano, teve o primeiro filho e recebeu todo o suporte da empresa, incluindo espaço na geladeira para guardar o leite materno que o bebê tomaria no dia seguinte. “Nesse sentido de respeito à mulher, a Natura estava muitos anos à frente.”

O crescimento acelerado fez com que o escritório em São Paulo ficasse pequeno. “Aí inauguramos a sede em Cajamar. Era maravilhoso, mas eu levava uma hora e meia para chegar em casa”, lembra Anna. “Quando você não tem filho, tudo bem. Quando tem, começa a sofrer com cada minuto a mais.” A vontade de ficar mais perto do filho foi o gatilho para procurar outro emprego, depois de sete anos na Natura. “Saí chorando”, lembra. Enquanto isso, a multinacional Whirlpool ficava a uns vinte minutos de distância da casa dela. “Assumi a vice presidência de marketing e inovação”, conta Anna, mais uma vez subindo um degrau na carreira.

“Mas se eu te contar uma coisa... Eu achava que ia trabalhar menos”, diz. “Mas eu trabalhava mais. Toda multinacional tem estrutura matricial e precisa ter alinhamentos globais”, explica. Mas, por conta dos diferentes fusos-horários de países como China e Estados Unidos, ela participava de conference calls quando o que queria mesmo era estar levando o filho para a escola ou lendo uma história para ele dormir. “Senti necessidade de tirar um período sabático”, diz. “É uma decisão muito difícil porque você não sabe se um dia vai voltar a trabalhar e não sabe como o mercado vai encarar isso. Mas o lado materno é mais forte.”

Pela primeira vez na vida, ela não sabia qual seria o próximo passo. Sem se preocupar com isso, Anna deixou o emprego para participar de reuniões na escola às 11h da manhã, viver pequenas temporadas com o filho em outros países, escrever dois livros com dicas para viajar com crianças – Nova York e Paris – e até frequentar um outro almoço de negócios de vez em quando, para não sair completamente do radar do mercado corporativo. “Eu pensava que meu sabático podia durar uns dois anos”, diz. “Mas um headhunter me ligou dizendo que tinha uma oportunidade para ser Country Manager da Swarovski.” Um ano e meio depois de sair da Whirlpool, a executiva fez um bate e volta para Miami para conhecer o presidente para a América Latina da empresa conhecida pelos cristais. Quando pousou no Brasil, já estava contratada.

“Eu não daria um passo para ser diretora geral em uma empresa gigantesca”, comenta. “Me interessei nessa vaga por ser uma estrutura pequena. Senti que podia aprender e contribuir para estruturar as áreas e a montar processos.” Depois de um ciclo de dois anos, Anna topou o desafio de presidir uma empresa maior. “Só saí de lá porque tive um convite da L’Occitane”, diz. “Abrimos mais de 70 lojas e criamos o conceito da L’Occitane au Brésil, fabricando produtos aqui e resolvendo os problemas que existiam de importação e registros na Anvisa.” Foram três anos que mais pareceram dez, como compara Anna, tantas foram as realizações. “Saímos do oitavo lugar global para chegar à quarta posição, quase ultrapassando a França.”

Antes de assumir a presidência do Grupo Samsonite para o Mercosul, em 2015, Anna ainda fez uma imersão no universo de private equity. “Eu queria muito trabalhar com fusões e aquisições”, comenta. “Fui conversar com três fundos, recebi três propostas e escolhi a Advent.” Com a missão de criar a divisão de cosméticos, Anna passou dois anos prospectando – e descobriu que não é nada fácil adquirir empresas que cumpram os critérios de rentabilidade, história e compliance, entre outros. “Você visita cem empresas em um ano, chega a dez opções, para no final comprar uma. Sou uma profunda admiradora do trabalho que eles fazem, mas, para mim, ficava a sensação de que eu não realizava.”

A lista de realizações dos últimos dois anos na empresa global líder em malas e acessórios para viagem é grande. Responsável pelas operações do Grupo Samsonite no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, Anna está sempre fazendo algo novo. “Vim para cá com espanhol enferrujado e sem saber como funciona a operação de recursos humanos ou a logística de tributação de impostos em diferentes países.” Todos os meses têm viagens, abertura de novas lojas e até de novas marcas no Brasil, como a American Tourister e a Xtrem, o que leva a um crescimento fora da curva de cerca de 67% ao mês.

Por enquanto, não há planos para mudar de empresa. O sonho de um dia ser expatriada ainda está na gaveta, mas deve ficar lá por mais um tempo. “Tenho uma mãe de 83 anos com Alzheimer. Não quero me ausentar agora”, afirma. O máximo que ela ficará fora são as três semanas de férias em 2018. Para uma executiva responsável por uma operação regional, esse tempo é quase um novo sabático. “Ano que vem faço 50 anos e 25 de casamento”, diz. “Queremos casar de novo na Índia.” Além de planejar a viagem, ela quer mesmo é curtir o trabalho e a família do jeito que estão. “Quando eu era jovem fazia muito plano. Não sei se são meus cabelos brancos, mas vivo muito mais o presente”, brinca Anna, realizada.

FOTO · PHOTO GRAZI VENTURA

Camila Balthazar
Camila Balthazar
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