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Destino Nacional Destino Nacional Belém do Pará atrai visitantes com sua gastronomia regional e criativa

Belém do Pará atrai visitantes com sua gastronomia regional e criativa

Carla Lencastre

Com uma cena gastronômica vibrante e criativa, que valoriza produtos locais, a capital paraense oferece uma experiência singular para o paladar

 

Fotos: Flavio Terra

 

Basta uma mordida no pastel e o inusitado recheio de tacacá revela sabores que você nem sabia que existia. Um gole de uma leve e refrescante cerveja com bacuri complementa a experiência única. Ou então combine cubos de pirarucu frito e um drink com cachaça e cacau. Em Belém, de bocado em bocado, e de gole em gole, se faz uma viagem fascinante por uma das melhores cozinhas brasileiras, que valoriza a produção de seus rios e florestas.

 

Metrópole cosmopolita e vibrante, com 1,5 milhão de habitantes e 402 anos, a capital do Pará tem clima amazônico, com calor e umidade constantes e momentos alternados de sol forte, mormaço e temporal. A gastronomia é um trunfo. Come-se bem, do açaí fresco no popular Ver-o-Peso ao pirarucu defumado ao leite de coco no premiado Remanso do Bosque.

 

Reformada no ano 2000, a área portuária marcou o início da transformação urbana que acompanhou a evolução culinária da cidade. Armazéns foram restaurados para abrigar um polo gastronômico e, hoje, formam a Estação das Docas, um dos principais pontos turísticos, frequentado também por moradores.

 

Reformada em 2000, Estação das Docas é símbolo da transformação urbana e gastronômica da cidade

 

É por ali que você deve começar a aventura pelos sabores locais, uma das principais razões que levam o visitante a Belém. O ponto de partida pode ser em uma das muitas mesas à beira-rio da concorrida Amazon Beer. A história da cervejaria artesanal se confunde com o endereço, já que o brew pub foi um dos primeiros bares das novas Docas. A cerveja pode ser acompanhada pelo pastel de tacacá, por um queijo de búfala da Ilha de Marajó ou por unha de caranguejo, petisco, no mínimo, curioso.

 

Similar a uma coxinha, unha de caranguejo é recheada com crustáceo

 

Para provar açaí “de verdade”, vá ao Point do Açaí. O restaurante ca em um bonito casarão histórico e garçons explicam de maneira divertida como deve ser saboreado o fruto, que tem a melhor safra no segundo semestre. É servido gelado em uma tigela na qual pode ser temperado com açúcar e farinha grossa de tapioca ou d’água. Há quem acrescente gelo. Importante: o açaí não deve ser vertido em cima do peixe, como um molho, ou você corre o risco de ver um belenense passar mal. Evite também a deselegância de pedir banana, granola, leite em pó ou condensado.

 

Açaí “de verdade” é servido gelado e pode ser temperado com açúcar

 

A partir do final da tarde, quando o calor cede um pouco, a Estação das Docas fica repleta de gente passeando pelo calçadão de pedras portuguesas que reproduzem grafismos marajoaras, vendo o sol se pôr na Baía de Guajará e tomando um sorvete de açaí com tapioca da Sorveteria Cairu.

 

Outra maneira de assistir ao pôr do sol é fazer um cruzeiro fluvial pelo Rio Guamá, um dos que formam a Baía de Guajará. O delicioso passeio de uma hora e meia, em colorida embarcação de madeira, começa no terminal ao lado das Docas. Visitantes se espalham por dois deques. Um divertido casal de mestre de cerimônias conta histórias locais e apresenta ritmos, como o carimbó, enquanto os passageiros apreciam a paisagem arrebatadora ao cair da tarde.

 

Para ter um panorama da cozinha local e escolher em que apostar nos outros dias, uma boa opção é o restaurante Manjar das Garças, no Mangal das Garças, nos arredores do centro histórico. Criado em 2005, o Mangal é um parque de 40 mil metros quadrados às margens do Rio Guamá que preserva parte da vegetação aningal, nativa da região. No Manjar, o almoço é servido em um bufê com ênfase em pratos regionais. O cardápio muda diariamente. Quando estive lá, havia pirarucu, filhote (peixes dos rios da Amazônia), maniçoba, e feijoada paraense sem feijão, feita com carne de porco e folha de mandioca triturada e cozida, entre outras opções. Mas o que me tirou do sério mesmo foi a farofa de suruí.

 

Mangal das Garças preserva vegetação aningal, que é nativa da região

 

Parque tem 40 mil metros quadrados e fica à beira do Rio Guamá

Ah, as farinhas de Belém. Um dos melhores programas da cidade é ir ao Complexo Ver-o-Peso. Não é preciso madrugar, mas leve em conta que o calor aumenta conforme o meio-dia se aproxima. O mercado está no mesmo local desde 1625 e passou por diversas configurações ao longo dos séculos. Hoje tem uma concorrida área de refeições preparadas na hora, entre as quais o prato mais comum é o peixe frito acompanhado de açaí. Em diversas partes do merca- do encontra-se molho de tucupi (líquido amarelo extraído da raiz da mandioca brava, que pode vir com ou sem pimenta) e cachaça de jambu, outros dois ícones locais. O jambu é uma planta que anestesia a boca, usada na cachaça e em pratos como o tacacá.

 

Mercado Ver-o-Peso é um dos melhores programas da cidade

Em outra parte do complexo tem artesanato, com destaque para as cerâmicas da Ilha de Marajó. São especialmente bonitos os vasos e pratos que reproduzem os tons de café com leite dos objetos marajoaras originais. O mercado tem ainda o setor das ervas, com poções mágicas para quase tudo o que se possa imaginar; o das castanhas, de diferentes tamanhos, inclusive as frescas, que devem ser comidas em poucos dias; e o das farinhas, onde perdi o juízo e enchi a mala.

 

É possível também comprar poções mágicas para quase tudo

A farinha de tapioca em sua versão mais grossa, para acompanhar o açaí, não me comoveu. Já a de Bragança, amarela clara e considerada uma das melhores, é mesmo incrível. Tão crocante que pode (e deve!) ser comida crua. Mas minha nova paixão é mesmo a de suruí, amarela escura, que acompanha nove entre dez pratos servidos em Belém. Ô, sorte. Em todas as mesas às quais me sentei durante quatro dias em Belém, não voltou um grão de farofa de suruí para a cozinha.

 

Belém preserva com vigor as origens da sua cozinha ao mesmo tempo em que abre espaço para bem-sucedidas releituras. Bom exemplo disso é o Remanso do Bosque, de cozinha amazônica contemporânea, que já esteve entre os 50 melhores da América Latina no prestigioso ranking do World’s Best Restaurants. Do final de 2011, o Bosque é a versão moderna do Remanso do Peixe, ambos sob comando do chef Thiago Castanho.

No Remanso do Bosque há algumas receitas clássicas da família, como o arroz caboclo com frutos do mar e do rio, ao lado de pratos criativos, como escondidinho de pirarucu defumado com banana, ameixa e queijo coalho e, o melhor da noite, um pirarucu defumado cozido ao molho de leite de coco com banana-da-terra frita e castanha.

 

Vários restaurantes ficam na Ilha do Combu, em frente a Belém, que pode ser acessada em pequenas embarcações

 

Para fechar a viagem pelos sabores paraenses, agende um passeio à Ilha do Combu, em frente à cidade. De lancha, são apenas 15 minutos pelo Rio Guamá. Percorridos por pequenas embarcações, os igarapés são repletos de restaurantes. O mais famoso é o Saldosa Maloca (Saldosa com L mesmo). Na ampla varanda em palafitas sobre o rio, aproveite a vista para o panorama formado pelos prédios altos da Belém de hoje e peça seu favorito dos dias anteriores. Tem pirarucu, filhote e pescada amarela em diferentes preparações. O tambaqui na brasa com arroz de jambu é um dos sucessos da casa.

 

Restaurante Saldosa Maloca serve peixes em diferentes preparações

Para beber, vá de Saldoso Cacau, criação com cachaça, mix de cacau e geleia de cacau servido dentro do fruto, colhido na própria da ilha. Se você já estiver se sentindo local, arrisque um tacacá. A sopa quente, com tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão, deve ser tomada direto da tigela, sem colher. Acompanhe com uma cachaça de jambu e você regressa para casa com carteirinha de belenense. De volta à rotina, se esbalde com a farinha trazida na mala, mas lembre-se de seguir resistindo ao açaí com banana.

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