Voltar

Cultura

Agenda

Cinema

Entrenimento a Bordo


Voltar

Lifestyle

Gastronomia

Vinhos

Inspire-se

Family Trip

Expedição

Colunas


Voltar

Capa

Edição atual

Making of

Celebridades

Edições anteriores


CapaCelebridadesDos blocos de rua aos palcos: Leandra Leal fala sobre suas paixões

Dos blocos de rua aos palcos: Leandra Leal fala sobre suas paixões

Atriz, produtora, roteirista, diretora, empresária, ativista, mãe e foliã, Leandra Leal acredita que o amor e a amizade são o que há de mais revolucionário no mundo

TEXTO: Flávia Ribeiro / FOTO: Jorge Bispo

Os olhos de Leandra Leal brilharam quando ela deu de cara com a mesa cheia de adereços de cabeça e a arara lotada de roupas e fantasias, sem economia de cores e de brilhos, para as fotos que ilustram estas páginas. Mas quem vive o carnaval com a entrega que ela tem não para por aí: a atriz, produtora, roteirista, diretora e empresária levou, ela mesma, uma mala repleta de figurinos, como o body de lantejoulas vermelhas e a “asa” de franjas coloridas, que aparecem nas fotos. “Eu amo me fantasiar. Acho linda a possibilidade de você vestir seus sonhos. E a fantasia não é só a roupa, é um jogo; as pessoas agem de acordo com o personagem que vestem”, diz ela, enquanto coloca para tocar, em seu celular, a playlist que escolheu para o momento das fotos, passeando de “Chuva, Suor e Cerveja”, de Caetano Veloso, “Vai Passar”, de Chico Buarque, a “Bixinho”, de Duda Beat.

 

Há dez anos, Lelê, como é chamada pelos amigos, é a porta-estandarte do centenário Cordão da Bola Preta, o mais antigo bloco de rua do Rio de Janeiro, fundado em 1918. Este ano não será diferente. Ela vai marcar presença ainda no Cacique de Ramos, outro bloco tradicionalíssimo da cidade. Conhecida por seu ativismo em prol da mulher, da comunidade LGBTI+ e do meio ambiente, entre outras causas, Leandra aposta no carnaval como expressão não só cultural, mas também política.

 

“Carnaval é o meu feriado. É a época da liberdade, da ocupação da cidade. Nas ruas, saem os carros e entram as pessoas. É tão lindo tudo parar para você brincar… É um oásis, e que ele contamine o ano todo com liberdade, criatividade, transgressão e democracia”, torce ela, que também vai desfilar em sua escola do coração, a Mangueira. Não como destaque, em carro alegórico, nada disso. Vai no chão mesmo. “Eu sou muito de bando, vou sair em ala normal com a minha turma. Gosto de estar com amigos e família.”

 

 O carnaval de rua de são paulo está cada vez maior e mais divertido. Acho que ainda vai virar o maior do mundo. É o maior mercado, reúne músicos de todos os lugares do brasil.

Aos 36 anos, e com quase três décadas de carreira, Leandra já fez perto de 30 filmes, mais de dez peças e participou de cerca de 30 programas de TV, entre novelas, séries e minisséries. É ainda, ao lado da mãe, a atriz Ângela Leal, uma das donas do Rival, mais antigo teatro privado do Brasil, herdado do avô, o empresário de teatro de revista Américo Leal. Com as amigas Carolina Benjamin e Rita Toledo, toca a produtora Daza. Nela, produziu os três longas do projeto “Operação Sônia Silk” e dirigiu o premiado documentário “Divinas Divas”. O filme fala sobre a trajetória de artistas travestis dos anos 1960, como Rogéria e Jane Di Castro – estrelas de um espetáculo de mesmo nome que ficou em cartaz por dez anos, entre 2004 e 2014, no Rival. Em 2017, quando o longa foi lançado, elas voltaram ao teatro, com direito a um tour por várias cidades do Brasil.

 

“Foi o documentário mais visto do ano. Mas trabalhamos para isso. Rodei o país inteiro, e as divas rodaram comigo. Fiquei muito feliz com os prêmios, claro, mas feliz e realizada mesmo com a maneira como o filme tocou o coração das pessoas. Tive muita dificuldade para captar dinheiro para o ‘Divinas Divas’, e o sucesso dele é um case que abre portas para outras pessoas que querem falar sobre questões de gênero, assim como uma mulher na direção abre portas para outras”, acredita.

 

Leandra dedica a maior parte de seu tempo livre à filha Júlia, de 4 anos, que adotou em 2016 com o ex-marido, o produtor cultural Alê Youssef, depois de 3 anos e 8 meses de espera na fila. “Diminuí muito o ritmo depois da chegada dela”, afirma. Apesar disso, como se vê, sua vida é só correria. Em 2019, ela volta ao teatro com a peça “PI – Panorâmica Insana”, dirigida por Bia Lessa, que recebeu elogios em 2018, quando esteve em cartaz em São Paulo. Dessa vez, Leandra, Claudia Abreu, Rodrigo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira se apresentarão no Festival de Curitiba e no Rio de Janeiro, além de, possivelmente, voltarem a São Paulo. Na TV, chega com duas produções: a série “Aruanas”, já gravada, na qual divide a cena com as amigas Taís Araújo e Débora Falabella; e provavelmente a novela “Troia”, de Manuela Dias, também com Taís e Débora.

 

 

“Aruanas” levou Leandra ao Amazonas, onde o contato com populações ribeirinhas a fez abraçar ainda mais a causa ambiental. A história acompanha três amigas que formam uma ONG e vão investigar a ação de uma mineradora na floresta amazônica, junto com uma estagiária, interpretada por Thainá Duarte. Para a atriz, gravar “Aruanas” e estreitar os laços com o norte do país foi uma experiência transformadora. “Foi a união de duas paixões: a arte e o ativismo. E numa equipe formada cinquenta por cento por mulheres”, revela ela, que faz parte do conselho do Greenpeace, entidade que defende a preservação do meio ambiente no mundo.

 

“A Amazônia precisa ser preservada. A questão ambiental é algo que tem me doído muito. Porque os tecidos culturais e sociais, mesmo quando sofrem, podem ser refeitos. Mas o ambiental, não. É assustador pensar o que aguarda as futuras gerações se não houver um cuidado maior”, diz, em tom firme, mas suave. O ativismo de Leandra não é acusatório. Ela fala com o tom de quem busca agregar, de quem acredita que, conversando, muitas vezes a gente pode se entender. “Eu tenho minhas posições, mas escuto muito também. É importante conhecer outros pontos de vista”.

 

Como produtora, está à frente de dois novos documentários: “Fico te devendo uma carta sobre o Brasil”, sobre as cartas da avó de uma de suas sócias, uma mãe que lutou pela liberdade do filho durante a ditadura militar e pela anistia; e “As Mil Mulheres”, com artistas plásticas produzindo obras a partir das histórias de outras mulheres. “Gênero é uma questão da minha produtora. A Daza foi criada para dar voz aos nossos projetos culturais e àquilo em que a gente acredita”, explica.

 

Eu amo me fantasiar. Acho linda a possibilidade de você vestir seus sonhos.

Esta também é uma questão pessoal de Leandra. Agora, que é mãe de uma menina, mais do que nunca. “Quero que a Júlia cresça sem preconceito, livre, com autoestima”, diz. Criada em coxias de teatro, acompanhando a mãe em suas peças e gravações, ela agora vê a história se repetir. “Minha filha vai aonde estou. Ela foi comigo para a Amazônia (durante as gravações da série) e foi incrível”, conta, lembrando de quando ela própria era criança. “Minha infância foi muito rica, muito lúdica. Depois que cresci é que entendi melhor que a maioria das pessoas não via as coisas como eu via.”

 

Para botar sua visão de mundo para fora, ela já se prepara para mais uma investida como diretora. O projeto, por enquanto, ainda é segredo. Ela só revela que, assim como aconteceu com o “Divinas Divas”, será sobre um tema pessoal. “Um amigo me perguntou: ‘Leandra, você faz filme para fazer análise, né?’”, conta, rindo. Para ela, direção é algo prazeroso, mas sofrido. Principalmente pela enorme responsabilidade que vem com a função. “Um dos meus talentos como diretora é juntar pessoas em torno do meu sonho e levá-las a sonhar comigo. Como atriz, é completamente diferente, eu me desloco de mim. Quando faço novela, parece que estou de férias”, brinca.

 

 

E é assim, se dividindo (ou se multiplicando) entre teatro, cinema, televisão, blocos, escola de samba, que ela vai contando sua história. Com espaço para o confete, a serpentina e a lantejoula, mas também para discussões sérias, ativismo, trabalho e a maternidade. “Acredito que o amor e a amizade são o que há de mais revolucionário, de mais transgressor. A vida é muito melhor quando se está acompanhada”.


OS PREFERIDOS DE LEANDRA

  • Rio de Janeiro:
    Cordão da Bola Preta
    02/03, às 08h30, na Rua 1 de Março
    Cacique de Ramos
    03, 04 e 05/03, às 18h, na Rua Almirante Barroso
  • São Paulo:
    Acadêmicos do Baixo Augusta
    24/02, às 14h, na Rua da Consolação X Avenida Paulista
  • Salvador:
    Ilê Aiyê
    02/03, às 21h, no Curuzu
    04 e 05/03, às 19h, em Campo Grande
    Cortejo Afro
    01/03 no Circuito Avenida
    03 e 04/03 no Circuito Barra/Ondina


SUA VIAGEM NA REVISTA

Envie sua foto e conte porque mais pessoas deveriam conhecer este lugar.