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Depois de sucesso em novela, Juliano Cazarré fala sobre carreira e paternidade

Conhecido por fazer personagens másculos e viris (mas com uma pitada de doçura), o ator fala sobre a carreira e a evolução como intérprete, além de discutir o papel da paternidade nos dias atuais

TEXTO: Juliana Deodoro / FOTO: Diego Bressani

Juliano Cazarré comprou uma câmera fotográfica. Apesar de não se considerar um fotógrafo profissional, ele, que é do tempo dos negativos, estava com saudade de se preocupar com os elementos básicos dessa arte, como a escolha da lente, a abertura do diafragma e a velocidade. “Fotografo tudo que eu acho bonito: das muitas coisas no meu jardim ao meu fim de semana com os meninos”, resume o ator de 37 anos, pai de Vicente e Inácio, de 8 e 5 anos, respectivamente.

 

Beleza é algo que parece ser fundamental para Juliano. É essa mesma palavra que ele usa para descrever o prazer em viajar (“a gente vê que tem beleza por todos os lados”) e a poesia (“a beleza da poesia nos ajuda a enfrentar a falta de sentido, a violência e a dor que fazem parte das nossas vidas”). Ao mesmo tempo, é a beleza que ele tenta superar a cada novo trabalho na televisão, no teatro ou no cinema. “Estou pronto para fazer personagens que sejam dramáticos e profundos, homens que sejam mais cerebrais e menos físicos”, diz.

 

Destaque na última novela das 9 como Mariano, um personagem ambíguo, que se relacionou com mãe e filha (Marieta Severo e Grazi Massafera) em “O Outro Lado do Paraíso”, Juliano completou dez anos de carreira na televisão. Filho de um funcionário público/escritor e uma pedagoga/dona de casa, ele nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas foi criado em Brasília.

 

 

Apaixonado por esportes, especialmente pela natação, descobriu o amor pelo teatro no fim do ensino médio, quando teve de fazer uma cena curta na escola. Acabou abandonando a ideia de estudar jornalismo e prestou vestibular para artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB). “Ninguém te incentiva muito a ser ator”, conta. “Os colegas estranham, a família estranha, não é uma profissão que a princípio vai dar certo. Porém, para mim, era a única decisão possível, era o que tinha a ver comigo e fiquei muito feliz por ter me encontrado nisso.”

 

“Os homens precisam ser bons pais. Temos que estar presentes na vida dos lhos e na vida familiar.”

 

Há 10 anos você estreava na TV, além de ter feito cinema e teatro ao longo desse tempo. Atuar ainda é algo que te dá prazer?
É algo que me dá muito prazer. Tanto a televisão, quanto o cinema e o teatro. Gosto de construir os personagens, da adrenalina de entrar em cena, aquele momento que está combinado, ensaiado, mas, mesmo assim, sobra espaço para uma coisa nova, fresca, que aparece e acontece ali, na hora. Gosto muito do jogo, de brincar com o colega, olhando no olho um do outro. A essência da minha profissão é o jogo.

 

Neste ano você esteve na novela “O Outro Lado do Paraíso” e participa de dois filmes muito diferentes: “Pluft” e “O Grande Circo Místico”. Como você se vê como ator hoje?
Um ator que aos poucos está ganhando mais controle sobre o que faz. Eu acho que isso é uma coisa que vai acontecendo aos poucos na carreira artística – a menos que a pessoa seja um gênio absoluto, como Rimbaud, que aos 22 anos mudou a história da poesia (risos). A maioria dos outros artistas vai, aos poucos, ganhando ferramentas, ganhando controle sobre seu trabalho, entendendo melhor o que está fazendo, e acho que isso está acontecendo comigo. Vejo que resolvo cenas de uma maneira muito mais fácil. Não preciso mais estar dormindo e acordando com o personagem. Consigo entrar e sair mais fácil do papel, voltar para minha vida sem trazer coisas desnecessárias. Mas sigo estudando, me preparando, aprendendo. Não me sinto um ator pronto.

 

Mariano, o último personagem do ator na TV, foi um dos destaques de “O Outro Lado do Paraíso”

 

E o que ainda espera atingir dentro da profissão?
O que eu quero é fazer grandes trabalhos. Espero fazer boas peças, boas novelas, bons filmes e construir personagens que sejam inesquecíveis para o público.

 

Além de atuar, você também é escritor e publicou um livro de poemas. Ainda escreve? O que a poesia te traz?
Continuo escrevendo, mas bem menos do que gostaria. E dentro do pouco que tenho escrito, venho trabalhando menos como escritor de poesia ou prosa e mais como roteirista. Mas gosto muito de ler poesia. Acho que a poesia traz a beleza. Em um mundo caótico, desorganizado, sem sentido, a arte é a beleza construída, um discurso organizado. Acho que a arte nos ajuda a lidar com a realidade excessivamente dura, caótica. A beleza da poesia nos ajuda a enfrentar a falta de sentido, a violência e a dor que fazem parte das nossas vidas. Acho que tanto a poesia quanto qualquer outra forma de arte trazem isso.

 

Em 2012, quando estourou com o Adauto em “Avenida Brasil”, você já falava sobre fazer personagens que não fossem apenas másculos ou viris, algo que se tornou ainda mais presente na sua fala e nos papéis que surgiram desde então. O que, para você, mudou de lá para cá? O que ainda precisa mudar?
Pois é, quando eu falava em 2012 de fugir de personagens só másculos ou que fossem só o machão, só o latin lover, eu queria dizer que eu não sou a imagem que se tem de mim à primeira vista. Sou um cara que gosta de fazer esporte, tem um corpo atlético, mas que estuda, se sensibiliza, lê muitos livros e que está pronto para fazer personagens que sejam dramáticos e profundos, homens que sejam mais cerebrais e menos físicos. Gosto de fazer personagens masculinos e viris, mas continuo batalhando para ser visto como um cara que pensa, fala e é sensível. Acho que tenho conseguido fazer isso: pegar um personagem que é muito masculino e botar algo de doce nele ou pegar um personagem doce e botar algo mais rústico. Personagem precisa de contraste, precisa de mistério. As pessoas mais interessantes que a gente conhece na vida são pessoas que têm contradições, que são surpreendentes e misteriosas, e eu tento fazer meus personagens assim.

 

“Vejo minha carreira como uma parede em que estou botando um tijolinho de cada vez. Nada aconteceu por acaso. Eu não quei famoso do dia para a noite.”

 

 

De que forma você traz isso também para sua vida pessoal?
Eu sou um homem que escuta as mulheres, sempre escutei. E faço questão que suas vozes sejam ouvidas em qualquer lugar onde eu esteja: trabalho, vida, boteco. Sempre escutei minha mãe, minha irmã, minhas colegas. Gosto do ponto de vista feminino. Acho que os homens precisam disso para abrir seu espectro de pensamentos: ouvir as mulheres, tentar entender as mulheres, suas angústias e necessidades. O que eu fiz para minha vida foi me sensibilizar. Escutar a mulher que habita em mim. Sou um cara que me permito sentir, me permito chorar, abraço e beijo meus filhos.

 

Ainda nesse contexto, o que é para você ser pai de meninos em pleno 2018?
Ser pai de meninos em 2018 é falar para eles que é legal ser homem, é legal ser masculino, ser forte, gostar de subir em árvores, dar cambalhota e tal, mas que qualquer menina pode gostar da mesma brincadeira. E que eles têm o direito de chorar, de se emocionar, que eles têm o dever de cuidar um do outro e dos seus amigos, respeitar as namoradas, respeitar o pai e a mãe, respeitar os idosos. Acho que esse tipo de coisa não sai de moda. A gente precisa formar uma sociedade de homens valorosos, honrados, preparados, competentes, trabalhadores, homens fortes e sensíveis.

 

 

Você acredita que o papel da paternidade se transformou?
Eu não sei se o papel da paternidade se transformou. Acho que o papel da paternidade é importante. Tirando as diferenças impostas pela natureza, como gerar e amamentar, pais e mães têm a mesma importância. A falta de figuras paternas ou maternas são sempre prejudiciais. A gente tem que tomar cuidado com algumas coisas, como, por exemplo, o machismo. Mas não acho que tem que ser menos pai ou ser mais mãe. Os homens precisam ser bons pais. Temos que estar presentes na vida dos lhos e na vida familiar. É preciso ter diálogo, parceria. Precisamos ser parceiros de nossas esposas e deixar que elas sigam aquilo que sentem que dará mais sentido às suas vidas, seja trabalhar fora ou se dedicar exclusivamente à maternidade. Elas precisam decidir seus destinos e precisam do apoio de maridos compreensíveis e solidários para tal.


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