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CapaCelebridadesEm constante transformação, atriz Letícia Colin volta à TV e se prepara para novo papel

Em constante transformação, atriz Letícia Colin volta à TV e se prepara para novo papel

Depois do reconhecimento com a novela “Segundo Sol”, Letícia Colin volta à TV e se prepara para viver uma nova personagem com a leveza e a maturidade de quem está se descobrindo
(e evoluindo) como artista e mulher

TEXTO: Juliana Deodoro / FOTO: Gleeson Paulino

“Olha como a Letícia é diferente”, disse dona Analdina Colin, 70 anos, no momento em que a filha, vestida com um tailleur com um coração enorme bordado no peito, quebrou os joelhos e o
pescoço para uma pose deste ensaio. Professora de Educação Física aposentada, estava naquele dia repetindo algo que fez durante quase duas décadas da vida: acompanhar Letícia em um trabalho, o que foi obrigatório até que a atriz – que começou a fazer campanhas publicitárias aos oito anos – se tornasse maior de idade. Desta vez, porém, ela estava ali apenas para matar a saudade, curtir a companhia da caçula e se distrair. Entre uma troca de roupas e outra (além de perguntar se Letícia não queria comer alguma coisa), contava a quem quisesse ouvir todas as qualidades da filha: a organização, a dedicação, o gosto pelos estudos. “Ela lê cada livro de arte dessa grossura”, disse, formando no ar um calhamaço com os dedos.

 

Corujices à parte, dona Analdina tem razão: Letícia é realmente diferente, mas não pelas poses que faz diante da câmera e sim pelo que tem para compartilhar com o mundo. Apesar de jovem – ela acaba de completar 29 anos – fala com a maturidade de quem já viveu muito. Não responde nada de supetão. Pensa, reflete, e escolhe bem cada palavra antes de falar. Na nossa conversa, nenhum fato foi lembrança por si só. Todos traziam algum tipo de reflexão. O início da carreira, por exemplo, quando fazia testes e gravava comerciais, é motivo para falar sobre o encantamento que o ambiente do set ainda lhe proporciona. “Estou sempre conectada com esse sentimento primordial, da alegria, de não saber fazer direito. Gosto de ter a sensação de que eu não sei. Revisito sempre esse passado que está em mim”, diz.

 

 

De propaganda de pizza a cremes antirrugas, Letícia fez de tudo um pouco. Natural de Santo André, na Grande São Paulo, é a mais nova de quatro irmãos. A sugestão para que fosse a uma agência partiu da tia Adriana Colin, apresentadora e ex-cantora do grupo Banana Split. Como era uma menina “desinibida e muito esperta”, segundo a mãe, a carreira deslanchou. O primeiro trabalho na televisão foi no seriado “Sandy & Junior”, em 2000. Aos 12 anos, escalada para “Malhação”, mudou-se para o Rio de Janeiro e se reconheceu, pela primeira vez, como atriz. “Foi na primeira cena de choro que fiz. O diretor falava: você pode mais. Eu fiquei emocionada e percebi que estava fazendo aquilo pela personagem e não por mim”, lembra e logo emenda: “Mas também duvidei muitas vezes de que deveria seguir na profissão.”

 

Aos 17 anos, Letícia prestou vestibular e passou em História e Letras – que nunca cursou. Um ano depois fez também Jornalismo, mas trancou a matrícula. “Eu me cobrava muito e não confiava na minha intuição. Achava que não tinha papel para mim, mas tive muita sorte. A vida não me deixou desistir. Quando pensava que não deveria continuar como atriz, aparecia um teste e eu me ‘reapaixonava’ pela profissão, pela coxia, por este trabalho que me encanta, que eu adoro, e no qual me sinto bem.”

Comecei a falar muito ‘não sei’ para os meus personagens, do mesmo jeito que eu falo na vida. E eu acho que isso dá uma complexidade que engrandece a cena. Aceitar o que não se nomeia, não está na sinopse, e que não está na vida. Isso me fez uma pessoa e uma atriz melhores.

Ao todo, são 21 anos de carreira, sete novelas, oito séries, sete filmes e dez peças. Uma trajetória que a levou para diferentes emissoras e trabalhos e lhe ensinou, acima de tudo, a viver de forma cada vez mais leve e simples. “Eu já achei que minha carreira deveria ser uma escada e fui infeliz. Isso gerava muita ansiedade e frustração porque a vida não é cartesiana, matemática. Houve momentos que eu achava que seriam grandes turning points, que não aconteceram. Essa quebra de expectativa é muito rica para a gente se desenvolver”, afirma, creditando esses aprendizados ao budismo, que pratica há quatro anos, e à maturidade. “Os grandes momentos acontecem mais quando você está fluido. A vida é sutil, errática, misteriosa. Eu sinto que estou vivendo melhor. Tudo já foi muito pesado, sufocante, mas hoje tento não entrar nessas agendas que não são minhas.”

 

 

Rosa, seu último papel na TV, que cresceu ao longo da novela “Segundo Sol” e se transformou em uma das figuras mais importantes da trama e queridas do público, foi um desses acontecimentos inesperados. “Eu estava desavisada, sendo feliz mesmo, e ela aconteceu”, conta. Livre e dona de seu próprio corpo, a personagem tinha uma complexidade que lhe permitiu explorar camadas ainda mais profundas. “Existe tudo aquilo que a gente consegue nomear, falar, pensar, dizer. E existe o que não se nomeia, que é misterioso. Eu dei um salto no meu ofício como atriz quando passei a assumir e trazer para o trabalho essa coisa misteriosa, do imponderável da vida.”

 

Agora, em maio, Letícia volta às telas da TV na série “Cine Holliúdy”, uma adaptação do filme de Halder Gomes que, em 2003, levou mais de 400 mil pessoas ao cinema só no Ceará, onde a trama se passa. Ao mesmo tempo, segue em São Paulo para a gravação de “Onde Está Meu Coração”, que deve estrear no GloboPlay no segundo semestre. Na série, escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, ela será uma médica residente que se envolve com crack – outra personagem complexa e cheia de camadas.

O budismo foi muito importante por me colocar neste lugar de não ter controle, de confiar na vida, no universo, de estar conectada com uma coisa boa, otimista e esperançosa.

Para fazer o papel, entrou de cabeça no mundo da medicina e descobriu um universo bonito, emocionante e, ao mesmo tempo, muito duro. “Sabemos que as coisas findam e que a gente morre, mas o médico de um pronto-socorro lida com isso ativamente. Ninguém vai ao hospital se não estiver sofrendo. Eles jogam xadrez com a morte todo dia – e sem poesia. É na concretude”, diz, fazendo referência a uma cena do filme “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman. Segundo ela, essa disposição para enfrentar a finitude com coragem faz com que essas pessoas se fechem de alguma forma. “É um movimento diferente do ator, que está sempre aberto para sentir e entender no corpo de onde vêm as emoções.”

 

Letícia vê a arte como o lugar de resgate da sensibilidade humana, o que, para ela, traz uma responsabilidade enorme, especialmente na televisão. “Eu sei que este é um espaço precioso, que tem muita gente vendo. E como é um privilégio, eu preciso fazer deste um lugar para acrescentar alguma coisa, mesmo que seja uma utopia positiva e construtiva.”

Personagens são pérolas. Todos têm potencial humano de contar uma história, de ver aquela vida se transformando, a dramaturgia evoluindo. Eu sou apaixonada por isso. Sou atriz por isso.

Ao fim da entrevista, dona Analdina, que acompanhou tudo sentada em uma cadeira por perto, estava encantada com o que a filha tinha acabado de dizer. “Eu não sei onde ela aprendeu a falar essas coisas”, afirmou, fazendo a equipe toda rir. Ao ouvir a mãe, Letícia sorriu. Ciente da porta que se entreabria, fez logo um convite: “Podemos seguir juntas, para aprender ainda mais coisas.”

 

 

Stylist Bruno Pimentel
Make Carla Biriba


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