Voltar

Cultura

Agenda

Cinema

Entrenimento a Bordo


Voltar

Lifestyle

Gastronomia

Vinhos

Inspire-se

Family Trip

Expedição

Colunas


Voltar

Capa

Edição atual

Making of

Celebridades

Edições anteriores


CapaCelebridadesAdriana Calcanhotto conversa sobre sua infância, carreira e sobre o show “A Mulher do Pau Brasil”

Adriana Calcanhotto conversa sobre sua infância, carreira e sobre o show “A Mulher do Pau Brasil”

Após dois anos frequentando a Universidade
de Coimbra como professora e aluna, Adriana Calcanhotto volta ao Brasil com a turnê “A Mulher do Pau Brasil”

TEXTO: Ana Paula Kuntz / FOTO: Leo Aversa

No aconchego de um casaco de lã cinza e velho, a cantora Adriana Calcanhotto nos recebeu durante uma
breve estada em sua casa no bairro Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Recém-chegada de Portugal, onde esteve morando no último par de anos, a cantora gaúcha estreou a turnê “A Mulher do Pau Brasil” em Belo Horizonte em um dia e no outro já estava ali, na sua cidade preferida do mundo para morar.

 

Mas apenas de passagem: na manhã seguinte já estaria a caminho de Salvador, e então de Aracaju, e depois outras tantas cidades do Brasil para cumprir a agitada agenda de shows. Dessa forma, o abraço do antigo casaco, que fora de seu pai, intensificou as poucas horas que teve para sentir-se acolhida no lar. “Não há descanso. Turnê é um tempo da vida em que não se tem vida, mas se constroem memórias maravilhosas.”

 

Quem acompanha sua carreira desde o início sabe que o show não é novo: Adriana esteve em cartaz com “A Mulher do Pau Brasil” pela primeira vez em 1987, em Porto Alegre, sua cidade natal. Mas a temporada fora do país, de acordo com ela, deu sentido em trazer o show de volta aos palcos, como uma conclusão de sua residência artística além-mar. “A ‘Canção do Exílio’ (poesia de Gonçalves Dias, escrita em 1843) foi feita no jardim botânico da Universidade de Coimbra. Estar ali pensando no Brasil é uma tradição”, diz.

 

 

Com marcas tão distintas em sua carreira – ela lançou 14 álbuns, entre eles o projeto voltado ao público infantil, “Adriana Partimpim”, e um disco de sambas, chamado “O Micróbio do Samba” – a artista conta que hoje superou a preocupação de que o trabalho seguinte nunca fosse semelhante ao anterior. “Eu tinha medo de me repetir, de estagnar na zona de conforto. Porém, a experiência acadêmica me mostrou um novo ponto de vista, que não é o da repetição, mas o da especialização.”

 

Isso porque aquela que os brasileiros conhecem melhor como cantora, os portugueses têm como professora: Adriana foi para Portugal a convite da Universidade de Coimbra para dar aulas referentes à língua portuguesa. No curso, intitulado “Como escrever canções”, ela ensina sobre métodos, etapas de composição, origem e história da poesia, a fim de que os alunos entendam a estrutura de uma música. O curso tem mais o objetivo de formar entendedores e críticos do que letristas ou compositores – o que exige uma dose de talento artístico nato.


 

Para ela, que também está estudando arqueologia na mesma universidade, a experiência da vida acadêmica é uma novidade que tem adorado. Inclusive, já aceitou o convite para dar aulas por mais um semestre no ano que vem. “Lidar com os alunos é muito enriquecedor. Eles propõem questões interessantes, que exigem de mim muito estudo para dar uma devolutiva consistente. Na classe, tem gente de várias áreas de formação, de vários países de língua portuguesa, de várias idades, e eu tenho o desafio de manter todo mundo motivado.”

 

Tratando-se de alguém que “fugiu” da escola, essa tarefa parece ainda mais desafiadora. “Abandonei o colégio, mas nunca parei de estudar. Fui uma leitora precoce e sempre gostei de ler. Achava que ganhava mais tempo estudando sozinha, me dedicando ao que realmente me interessava. Além disso, cantar na noite não combinava com ir de manhã cedo para a escola”, lembra.

 

Aos 18 anos, Adriana abandonou o estudo “tradicional” para ter “aulas” com artistas experientes, e transformou o circuito boêmio gaúcho em sua escola. Passando de bar em bar com sua voz e seu violão, ela conta que essa experiência lhe deu a chance de se testar em cena, além de ter ensinado muito. “Acabei saindo do circuito porque aquele público pedia sempre o mesmo, e eu queria apresentar novidades autorais.

 

A vida em Coimbra acontece em função da universidade, em torno de bibliotecas e colóquios. Estou adorando!

 

Além disso, meu negócio não era bar, pois queria ousar no figurino, caprichar na produção do cenário, coisas que eu via Maria Bethânia fazendo.” Ainda que sua mãe, professora, reforçasse a importância de ir ao colégio, e seu pai, músico, alertasse sobre as dificuldades da carreira de artista, Adriana sabia que esse era seu destino e seguiu firme no propósito. Com o violão em mãos desde os seis anos de idade (as aulas de piano não deram muito resultado), a artista começou então a fazer aulas de canto lírico. “Se eu ia trabalhar com isso, precisava me especializar. A partir daí, quando a coisa ficou séria, tive todo o apoio dos meus pais.


Eu ando pelo mundo, mas não tenho o costume de passear. Viajo tanto trabalhando que, quando posso, prefiro não me mover.

No show “Adriana Partimpim”, e divulgando “Olhos de Onda”, seu terceiro disco ao vivo

 

 

SEM BAGAGEM

 

Adriana Calcanhotto tem horror de carregar bagagem. É uma pessoa desapegada, cosmopolita, que se adapta facilmente. Não tem problemas em ficar longe de casa e não sofre se passar meses sem comer aquela receitinha caseira preferida. Para a compositora da música “Vamos comer Caetano”, o mais importante é se alimentar de literatura. “Viajo com mala pequena. E prefiro devorar livros”, diz.

 

Portanto, não condiz a ideia de que a “bagagem” adquirida ao longo da carreira fez diferença na reconfiguração do show, trinta anos depois de seu lançamento. “Desde cedo me permiti dizer e fazer as coisas que queria em cena. Não é uma questão de mais maturidade ou experiência que modificou o show, mas uma questão de atualizar o que essa ‘mulher do pau brasil’ tem a dizer hoje.”

 

De modo geral, o repertório está equilibrado entre releituras de clássicos (a exemplo de “Eu sou terrível”, de Roberto Carlos, e “Geleia Geral”, de Gilberto Gil e Torquato Neto), sucessos de sua autoria (como “Esquadros” e “Vambora”, praticamente obrigatórias em suas apresentações) e material composto por Adriana em terras lusitanas, incluindo a música-título que abre o espetáculo.

 

 

 

Os portugueses tiveram o privilégio de ver tudo em primeira mão. Contudo, a versão apresentada lá, em abril, tinha suas próprias nuances. “Há códigos e referências à poesia trovadoresca que se compreendem melhor lá. Por outro lado, aqui estamos mais familiarizados com o movimento antropofágico. Enfim, é um show de ‘Língua Portuguesa’.”

 

E quanto a assistir a uma performance de Adriana Calcanhotto como professora no Brasil? “Tenho recebido muitos convites. Mas fico confusa, porque aqui sou vista de outro jeito, sou cantora. Não sei bem ainda como realizar isso. Vou aproveitar mais esse tempo em Coimbra, no ano que vem, para pensar como poderia fazer dar certo.”


SUA VIAGEM NA REVISTA

Envie sua foto e conte porque mais pessoas deveriam conhecer este lugar.