Voltar

Cultura

Agenda

Cinema

Entrenimento a Bordo


Voltar

Lifestyle

Gastronomia

Vinhos

Inspire-se

Family Trip

Expedição

Colunas


Voltar

Capa

Edição atual

Making of

Celebridades

Edições anteriores


BiografiaJoyci Lin, CEO da Go Eyewear

Joyci Lin, CEO da Go Eyewear

De imigrante chinesa à executiva brasileira

“A dor é um ensinamento muito forte”, diz Joyci Lin, CEO da Go Eyewear desde 2009. “Todas as decepções e experiências que passei no varejo me tornaram quem eu sou.” Nascida em Wenzhou, na China, ela emigrou para o Brasil aos oito anos, trabalhou desde os 14 no comércio popular dos pais, no Rio de Janeiro, abriu seu próprio negócio aos 19, quebrou aos 28. A empresária se mudou com o marido e as duas filhas para São Paulo e começou a segunda parte da sua carreira: de empreendedora a executiva. Desde que assumiu o cargo número um da empresa do setor óptico, o negócio cresce em média 27% ao ano. Atualmente são 16 marcas no portfólio, entre as quais as brasileiras Ana Hickmann, Evoke, Speedo e Jolie, além das internacionais de luxo, incorporadas após uma parceria com a italiana Kering Eyewear, em 2017.

TEXTO: Camila Balthazar / FOTO: Grazi Ventura

O primeiro emprego de Joyci Lin foi no Bazar Ling Ling, aos 14 anos. Ela ajudava em todas as áreas do comércio popular de produtos chineses que os pais abriram na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. O negócio logo expandiu para várias unidades, mantendo a filosofia do “vende de tudo” – de bugigangas a porta-trecos e tantos outros produtos importados, principalmente do Paraguai. A família chinesa imigrara para o litoral seis anos antes. Eles repetiam o caminho percorrido pelo avô de Joyci, que abandonou o país asiático de navio após perder toda a sua riqueza, pouco tempo depois do fim da Guerra Civil Chinesa, nos anos 1950.

 

“O sonho de todo chinês da parte oriental do país era se mudar para uma terra que tivesse liberdade”, explica Joyci Lin, atual CEO da GO Eyewear. “Não precisava ser a terra do dinheiro. Mas da liberdade.” Foi em busca desse sentimento que a família de Joyci desembarcou no Rio de Janeiro na década de 1980. Quase não havia imigrantes orientais por lá, ao contrário do que se via em São Paulo naquela época. Fluente em um dos 100 dialetos chineses – mas sem falar mandarim, muito menos português –, ela começou a estudar em um colégio da rede pública. Aturou os apelidos inventados pelos colegas. Estranhou o fato de as aulas de música não serem a base da lógica e dos cálculos da matemática, como acontecia na sua antiga escola chinesa. Viu as férias passarem, ano após ano, trabalhando sem parar.

 

Afinal, mesmo antes de se dividir entre as aulas de manhã e o Bazar Ling Ling à tarde, a filha mais nova da família já era uma espécie de faz-tudo para os pais. “Eles, obviamente, não falavam português”, lembra. “Como a criança tem muita facilidade para aprender, rapidamente virei tradutora, telefonista.

 

Eles não sabiam ler, então eu ia ao banco pagar contas, preenchia cheque, fazia a matrícula da escola, tudo. Quem assinava meu boletim? Eu!” O trâmite da importação também era função dela, fosse preencher os papeis fiscais ou redigir as notas na máquina de escrever.

 

O caminho natural era repetir a empreitada dos pais. “Não tinha internet. Não tinha canal fechado de televisão”, lembra. “Pessoas que cresciam em uma família de padaria, seguiam na padaria. Hoje você não tem esse limite. Pode ser qualquer coisa, mesmo não conhecendo. Mas, lá atrás, não tinha essa noção de ser algo que você não enxerga ao seu redor. As pessoas nem viajavam.” Joyci decidiu estudar administração na PUC-Rio e, aos 19 anos, recebeu um empurrãozinho da família para seguir carreira solo. “Escolhi trabalhar com bijuteria e semi- joias”, conta. Assim surgiu a Kaka Bijoux.

 

Um ano antes da formatura, em 1997, ela trancou a faculdade por falta de tempo. A cada 15 dias, Joyci viajava para São Paulo para comprar colares de strass, bolsas de festas e outros acessórios para abastecer seus estoques. Em 2002, quando completou 26 anos, a loja estava com quatro unidades espalhadas pelo Rio de Janeiro. E Joyci já era mãe de duas meninas. “Aí você acredita que a PUC me mandou uma carta perguntando se eu não queria terminar os seis créditos que faltavam para eu me formar?”, lembra. “Achei que já tinha jubilado.” Até então sem dar importância ao diploma – “para que um empresário precisa de título? Ninguém me pagaria mais por isso” –, ela decidiu dar um exemplo para as filhas.

 

A formatura aconteceu na mesma época em que os negócios chegaram ao fim. O marido, que antes ajudava nas lojas, começara a trabalhar como advogado. As viagens para a capital paulista estavam cada vez mais difíceis, pois Joyci precisava conciliar os cuidados com o trabalho e as filhas. A inflação alta, a carga tributária e o custo dos juros inviabilizavam o negócio. Em 2004, a última unidade da Kaka Bijoux exibia um banner na fachada: “Vende-se tudo. Últimos dias.” Mas a liquidação acabou se estendendo por seis meses e Joyci até repôs o estoque algumas vezes. “Eu já tinha combinado de entregar o ponto, mas começamos a vender o dobro. Maquiagem, gloss, vendia muito.”

 

Hoje, ela agradece os maus momentos que viveu no varejo. “A experiência de quebrar é boa”, diz. “Só consegue ser bom empresário ou executivo quem já fracassou. Você sabe a dor do outro. Eu sei quanto o varejista paga para o banco, o custo da carga tributária, dos funcionários. Tive todas as decepções que você possa imaginar.” Essa bagagem a ajudou a encarar a mudança de carreira que aconteceu um ano depois. Joyci recebeu o convite para trabalhar em São Paulo, assumindo a diretoria administrativa financeira da GO Eyewear, empresa do setor óptico. “O Ronaldo Pereira Jr., nosso antigo CEO, precisava de alguém que entendesse de importação e de finanças, que conversasse com os chineses. Eu tinha um entendimento vasto pela minha experiência, mais do que pela parte acadêmica.”

 

Ainda assim, um ano depois de virar executiva, ela se inscreveu no MBA do Insper. “Mas não é a sala de aula que vai te diferenciar”, diz. “As 50 pessoas que estão fazendo o MBA têm o mesmo conhecimento. O que muda é a sabedoria para aplicar. E isso depende da história e da vivência que você carrega.” Durante quatro anos, Joyci participou de quase todas as áreas, de logística e recursos humanos a financeiro e administrativo. Quando assumiu o cargo de CEO, em 2009, já estava adaptada ao ambiente corporativo – “é um mundo político que eu não estava acostumada” – e pronta para mudar algumas regras do jogo.

 

“Quando você tem seu próprio negócio, você dita as regras. Quando trabalha com uma coligação, precisa dançar conforme a música. Mas, quando assumi a gestão, fiz as regras diferentes”, brinca. Segundo ela, a empresa se tornou mais feminina e humana. Políticas de incentivo a estudos entraram em cena, assim como plano de saúde para funcionários. Porém, ela também precisou lidar com desconfianças alheias acerca do seu potencial. “Não me subestime por ser nova, nem por ser mulher”, avisa Joyci, hoje com 42 anos. Ela assumiu o cargo de CEO aos 33. “Não confunda minha delicadeza com fraqueza. O ritmo é intenso. Mas não precisa ser tenso.”

 

Ao longo desses nove anos sob sua gestão, a GO Eyewear aumentou quase dez vezes o faturamento. Saiu de 120 funcionários diretos para 420 e abriu uma fábrica em Palmas, no Tocantins, em 2014. “Capacitamos a mão de obra da região, tiramos jovens da vulnerabilidade, demos aula de comportamento e planejamento familiar e financeiro. Uma boa parcela dos funcionários da fábrica já comprou sua casa própria”, conta Joyci, comparando os desafios socioeconômicos da capital tocantinense aos de tantas outras cidades do Brasil.

 

“Vivemos nesse eixo Rio, São Paulo e Brasília e temos uma visão distorcida da realidade brasileira”, observa. “Algumas cidades não têm infraestrutura nenhuma. Nem a parte sanitária. É vergonhoso. Isso me revolta.” É por entender o perfil da maioria dos consumidores do país que o foco da GO Eyewear, de acordo com a executiva, não é o mercado de luxo. “O Brasil não é constituído de luxo. Grife sustenta vaidade, mas não mantém um negócio de pé. O povo brasileiro precisa de um produto de qualidade que seja acessível ao bolso.”

 

Porém, desde o primeiro semestre de 2017, a empresa também mira esse mercado, por meio de uma parceria com a italiana Kering Eyewear. “Eles nos procuraram para fazer uma parceria estratégica para distribuir os produtos com exclusividade. Falamos: ‘por que não’? Ao unirmos forças, fortalecemos as marcas”, explica. Com isso, a GO Eyewear passou a distribuir também as marcas Gucci, Cartier Lunettes, Bottega Veneta, Saint Laurent, Puma, Alexander McQueen/McQ, Stella McCartney e Boucheron. “Foi um casamento muito bom. A Kering Eyewear trabalha exa- tamente com o nicho que não atuamos”, comenta Joyci, indicando que a parceria pode virar uma joint venture no futuro.

 

A executiva se empolga ao falar do momento atual da empresa e de sua motivação para trabalhar intensamente – suas primeiras férias da vida foram em 2010. “As vendas durante a Copa do Mundo foram ruins. Você acha que não bate um frio lá dentro?”, questiona. “Mas como líder não podemos externar os medos ou toda a equipe desmorona. Acredito na física quântica. Somos energia vibrante, então precisamos projetar como será daqui para frente e superar qualquer dificuldade.” É com paixão e fé, como Joyci define, que os negócios continuam crescendo no Brasil e em outros 50 países, independentemente de crises externas.

 

De acordo com a CEO, todo esse trabalho mira funcionários e consumidores. “Os óculos são uma boa desculpa para conectar pessoas, nosso bem mais precioso”, diz. “Tem gente que pensa que quero chegar a um determinado faturamento. Esse não é o meu sonho. Quero que a empresa tenha mil colaboradores, seja ainda mais robusta e reconhecida como a melhor empresa para trabalhar.” Ao ouvir esses planos, é difícil imaginar que toda essa desenvoltura e habilidade não sejam natas a Joyci.

 

“Eu falo para o pessoal que eu era tímida e ninguém acredita”, diz. “Mas, na verdade, o que paralisa uma pessoa é o medo. Já era para eu ser extrovertida, mas era medrosa. A vida nos empurra. Como imigrante, você não tem muita opção. Tem que encarar com coragem.” Coincidência ou não, a executiva deixou a timidez para trás na mesma época em que virou brasileira. Como a China não dá o direito a dupla cidadania e Joyci decidiu se casar, ela abriu mão de ser chinesa. “Tenho todos os direitos de brasileira”, explica. “Só não posso me candidatar a presidente do país. Graças a Deus!”

 

Algumas inspirações da executiva
  • Livro
    Bíblia
  • Banda
    Hillsong Worship
  • Filme
    Intocáveis
  • Cidade
    Paris, na França
  • Líder
    Margaret Thatcher

SUA VIAGEM NA REVISTA

Envie sua foto e conte porque mais pessoas deveriam conhecer este lugar.