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BiografiaA disciplina transgressora de Caito Maia,
 CEO da Chilli Beans

A disciplina transgressora de Caito Maia,
 CEO da Chilli Beans

A vida de empresário de Caito Maia começou na informalidade, quando trazia óculos escuros dos Estados Unidos na mala para vender para os amigos. Era uma diversão para espairecer as decepções da carreira como baterista de bandas que quase viraram sucesso nacional. Ele também quase foi jogador de basquete profissional, modelo e dono de revista. Só não imaginou que fundaria uma marca de óculos com mais de 800 lojas espalhadas pelo Brasil e em outros oito países. “Disciplina e foco são o segredo da minha vida, de tudo o que eu tenho”, conta o CEO da Chilli Beans.

TEXTO: Camila Balthazar / FOTO:

O ambiente espaçoso lembra uma galeria de arte pop-contemporânea-kitsch, com caveiras coloridas, santos católicos, budas e almofada de luva de boxe dourada. Mas se trata do escritório de Caito Maia na sede da Chilli Beans, na Grande São Paulo. Prestes a completar 50 anos, o executivo ainda se parece muito com o jovem de cabelão comprido, calça camuflada cinza, blazer branco e lenço tigrado enrolado no pescoço que, aos 15 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos com enormes caixas de instrumentos musicais comprados nos Estados Unidos. “Sempre usei roupas diferentes e tive uma veia vendedora”, diz.

 

Ele aproveitava as viagens para comprar instrumentos e revender para os amigos no Brasil. “Imagina que eu vendia uma guitarra custava que 175 dólares em Nova York por 650 reais”, lembra Caito, se referindo a uma época em que o câmbio valia a pena. “Meus pais ficavam loucos com isso, mas eu infernizava muito.” De um lado, o pai era professor de piano. Do outro, a mãe vinha de uma família de classe alta que, como brinca Caito, “casou com um músico do interior.”

 

Ao mesmo tempo em que eles viviam de aluguel, frequentavam o tradicional Clube Atlético Paulistano, onde o filho mais velho começou a se destacar no basquete. O clube convidou Caito para fazer parte do time federado, sendo que a única contrapartida era trocar do turno vespertino para o matutino. “Não sei exatamente porque, mas meus pais não concordaram”, diz. “A vida é muito doida. Eu podia ter virado atleta. Mesmo gordinho, eu era muito bom.”

 

O paulistano investiu em outra paixão. Baterista desde criança, chegou a sentir o gostinho da vida de pop star três vezes: primeiro na banda de tecnopop Silvia James, que assinou contrato com a Warner Music em 1987 e chegou a participar do programa “Domingo Legal”, de Gugu Liberato. Depois com a banda grunge RIP Monsters, que não era a favorita de Caito (ele foi expulso do grupo, o que talvez explique a não predileção).

 

Mas o auge veio com a banda Las Ticas Tienen Fuego, na década de 1990. O grupo fez turnê pelo Brasil e comemorou a indicação de um videoclipe na premiação do MTV Video Music Brasil (VMB). Eles tinham certeza que levariam a estatueta. A derrota fez Caito se questionar se deveria continuar insistindo na carreira de músico ou seria melhor se jogar no negócio de óculos que já começara a estruturar. “Peguei o sucesso três vezes, mas ele escorregou pelas minhas mãos.”

 

A cada nova decepção musical, ele passava um tempo nos Estados Unidos, mesmo a contragosto dos pais. Na primeira grande temporada no exterior, aos 17 anos, estudou por dois anos em Boston. “Emagreci 50 quilos em seis meses e descobri que era capaz de fazer qualquer coisa. Essa autoconfiança mudou a minha vida”, lembra. De volta a São Paulo, virou modelo, até cair na estrada de novo, dessa vez para Miami, em 1992. Ele fugiu do furacão Andrew, trabalhou como pedreiro reconstruindo casas e finalmente conseguiu um emprego como vendedor de assinatura da revista Veja, em Miami.

 

Era um lugar para praticar o que sempre fez bem. “Comecei a bombar”, lembra. “Imagina eu, com uns 20 anos, ganhando 20 mil dólares por mês. Era uma grana de comissão.” Enquanto o chefe de poucas ambições seguia devagar, Caito inventou formas de faturar mais, fosse vendendo direto para a distribuidora de revistas ou comprando ele mesmo uma página de anúncio para dividir entre pequenos comerciantes. Mas a rotina de festas, restaurantes e carrões acabou de repente. “Minha saúde não aguentou essa vida maluca”, diz. “Tive que voltar.”

 

Aprendi a lição entre ter ou não uma marca. Se você tem uma marca, tem muito mais do que um produto.

 

Caito levou a carreira de negociante adiante no Brasil, trazendo na mala 200 óculos comprados de um camelô hippie no calçadão de Venice Beach, na Califórnia. Mesmo no improviso, vendeu tudo para os amigos. “Sempre tive facilidade para escolher peças interessantes”, comenta. “Uma chinesa que vendia em Los Angeles até comentou para a minha mãe, que ia comigo: ‘Todos os meus clientes pedem para eu escolher os óculos. Seu filho é o único que sabe o que quer’.”

 

Ele logo quis abrir uma importadora de óculos escuros, batizada de Blue Velvet, assim como o filme de David Lynch. “Eu não queria ficar vendendo ‘oclinhos’. Queria ser grande”, lembra Caito, que na época ainda tocava na banda Las Ticas Tienen Fuego. O empresário bateu na porta de Tu Duek, estilista fundador da Forum, e recebeu um pedido de 18 mil peças. “Eu não tinha capital para isso, mas o Tu me adiantou uma grana”, diz. Foram dois anos à frente da Blue Velvet. Com três funcionários e 250 clientes, Caito levou calote de duas empresas em 1996. Foi o suficiente para o negócio quebrar.

 

“Aprendi a lição entre ter ou não uma marca”, explica. Com o restante do estoque da Blue Velvet, ele montou uma barraquinha no Mercado Mundo Mix, evento itinerante que reunia artistas e estilistas criativos. “Ninguém perguntava o que eu vendia”, lembra. “Todo mundo só queria saber qual era a minha marca. Mas eu não tinha. Era só um vendedor de óculos.” Assim nasceu a Chilli Beans, com um banner e uma logomarca improvisada, mas já exibindo a famosa pimenta vermelha. “Se você tem uma marca, tem muito mais do que um produto”, explica.

 

A marca precisava de um ponto fixo, para deixar de depender de um evento que acontecia uma única vez por ano. Caito encontrou uma loja no andar superior da Galeria Ouro Fino, na rua Augusta, que naquela época era considerada underground e alternativa. Ele espalhou seus óculos coloridos e extravagantes, colocou música alta e contratou vendedores com visual diferente. A fila para entrar no espaço minúsculo da Chilli Beans dava voltas.

 

“É difícil falar, mas os caras não pegavam nem currículo de um negro, de um tatuado ou de homossexuais”, observa. “Essas pessoas vieram trabalhar comigo, independentemente de sexo, cor, qualquer coisa.” A história ultrapassou os limites da Galeria Ouro Fino no momento em que Caito define como o “pulo do gato”: a abertura de quiosques Chilli Beans em shopping centers, no ano 2000. Em vez de espaços fechados e óticas sisudas com óculos trancados dentro de gavetas, o empresário deixou tudo à mostra no meio do corredor, para qualquer um passar e provar.

Um ano depois, decidiu franquear o negócio, atendendo à demanda de centenas de pessoas que queriam ter uma Chilli Beans para chamar de sua. “Tive a luz divina de contratar dois senhores para trabalharem comigo”, lembra. “Eles falaram: ‘se você abrir isso aí, quebra em seis meses’. Eu ia abrir uma franquia no caos. Não que não tenha sido assim.” Quase sem querer, o empresário criou uma das únicas monomarcas de óculos do mundo. Isso significa que não existe uma loja física exclusiva da Ray-Ban, por exemplo, que domina o mercado em muitos países. “Somos o único lugar onde a Ray-Ban perde em faturamento. Eles têm 50% do mercado em todo o mundo. Aqui no Brasil têm 20%, enquanto nós temos 23%.”


Inspirações

  • Livro
    “Paúra – 20 Coisas de que Você Morre de Medo e Como Encarar Todas Elas”, de Sergio Franco
  • Filme
    “Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer”, de David Lynch
  • Músico
    David Bowie
  • Cidade
    Los Angeles
  • Pessoa
    Miguel Krigsner, fundador do Grupo Boticário

A empresa vai além de números. Na visão de Caito, o problema das marcas de óculos é deixar seus produtos nas mãos de quem não tem amor pela história do que está vendendo. “Na ótica, o vendedor só vai dizer que vende em 10 vezes no cartão de crédito, sem juros.” Mais uma vez, o empresário enfatiza a importância de construir uma marca, que também mantenha uma constante inovação: desde o início, todas as lojas recebem dez lançamentos por semana.

 

Nesses 21 anos de trajetória, Caito e a marca amadureceram, sem perder a cultura jovem. Em uma pesquisa “top of mind” encomendada pela Chilli Beans, eles descobriram que, de cada dez crianças de oito a 14 anos, sete citam a Chilli Beans como a primeira marca de óculos que vem à mente. O que leva a imaginar o potencial de crescimento para os próximos anos, quando essa geração crescer.

 

Outro dado mostra que a pimenta ainda vai longe: a cada cinco armações vendidas no Brasil, quatro são de grau e apenas uma é de sol. No início de 2019, o empresário abraça esse mercado de vez. “Vamos lançar um projeto novo, um lugar só para comprar lente e óculos de grau”, explica. Seguindo a filosofia da marca, a loja, inspirada em uma barbearia cubana da década de 1940, não tem nada a ver com óticas tradicionais.

 

Quem olha de fora, só vê tempo bom e festas. São 830 lojas espalhadas pelo mundo, sendo que, destas, 350 são quiosques. Em março, haverá mais uma edição do cruzeiro Chilli Beans, reunindo quatro mil pessoas a bordo para uma experiência de música, arte e moda. Caito está ainda à frente da terceira temporada do reality show “Shark Tank”, no Canal Sony. Seu livro “E Se Colocar Pimenta?” está em fase de roteiro para virar filme em 2021. E ele considera uma proposta para apresentar um programa de televisão sobre empreendedorismo jovem, a ser lançado no segundo semestre de 2019.

 

Ainda assim, os últimos três anos foram difíceis. “Sofremos muito com o mercado indeciso e oscilante, o dólar explodindo e acabando com a minha margem”, diz. “Foi muito sério. Preservei a margem dos 280 franqueados, mas tive que adequar preço e sambar bastante.” Espírita desde que o pai morreu, Caito acredita que o bem atrai o bem – é assim que o cenário instável ficará no passado. “Temos uma cadeia multiplicadora de pessoas do bem que vão se reunindo e se aglomerando.”

 

Para ele, pequenas escolhas têm o poder de mudar qualquer rumo. “Construí minha vida em cima de feeling”, diz. Se fosse teorizar sobre o assunto, ele diria que divide as decisões em 80% intuição e 20% consciência. Essa tal intuição não vai a feiras de tendências mundiais, nem segue regras pré-estabelecidas. “É olhar para frente e falar: ‘vamos por esse caminho, jogar esse jogo, vamos fazer a coisa acontecer’”, diz. “Chamo isso de verdade-futura. Se alguém pede para eu contar o que vai acontecer no futuro, eu conto. De tanto eu contar, vai virar verdade.” O próximo movimento é recomprar a porcentagem da Chilli Beans que está nas mãos do Fundo Gávea Investimentos desde 2012. Assim, a empresa voltará a ser 100% de Caito e de sua apurada intuição.

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