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BiografiaClaudia Woods, CEO da Webmotors

Claudia Woods, CEO da Webmotors

Riscos e oportunidades de uma carreira digital

Claudia Woods lida com negócios digitais desde antes de a bolha da internet estourar nos Estados Unidos, em 2000. A atual CEO da Webmotors estava empreendendo na área e sofreu as consequências, mas também percebeu que era com isso que queria trabalhar para o resto da vida. No seu currículo estão empresas como iBest, ClickOn e NetMovies, que já não existem mais, e Predicta e Walmart.com, que reduziram o tamanho da operação. Altos e baixos fazem parte da vida de quem surfa nessa onda. “Só estou na posição que estou hoje porque vivi todas essas histórias”, diz Claudia.

TEXTO: Camila Balthazar / FOTO: Rodrigo Trevisan

“‘De onde você é?’ é uma pergunta que tenho dificuldade de responder”, comenta Claudia Woods, CEO da Webmotors. “Tenho uma sobrinha que diz que sou biologicamente paulista, psicologicamente carioca e fisicamente americana.” A executiva nasceu em São Paulo, morou no Rio de Janeiro até os onze anos, viveu nos Estados Unidos por duas décadas, voltou para o Rio e hoje está em São Paulo.

 

O trabalho do pai, estadunidense e banqueiro, motivou o vaivém de cidades. A mãe, brasileira e educadora, era diretora de escolas do método Montessori. A família morou por quase uma década na pequena cidade de Wilton, vizinha de Nova York, e Claudia acabou incorporando a filosofia de muitos colegas da adolescência de trabalhar desde cedo. “Já cuidei de criança, trabalhei em loja de CD, andei com cachorro, fui motorista de táxi, pintei casa, apliquei piche na estrada, fiz sanduíche…”

 

A mãe reclamava que a filha era nova para trabalhar sete dias por semana. “Mas eu não gostava de ficar estudando teorias, então fui à luta”, lembra Claudia, dando como exemplo o dia em que apareceu em casa com seu primeiro carro, quando estava com apenas 15 anos. “Eu tinha juntado quatro mil dólares de toda a maluquice dos empregos e meu namorado pegou um empréstimo de dois mil e quinhentos dólares. Esse foi o maior símbolo dessa vontade de ser independente.”

 

Nenhuma carreira tradicional a atraía. “Sempre imaginei trabalhar com algo mais ligado a negócios. Um caminho autônomo e empreendedor.” A escolha por estudar liberal arts na Bowdoin College ajudou a seguir o conselho do pai, de que ela poderia fazer o que quisesse. “É um curso que estimula o desenvolvimento intelectual e o senso crítico”, explica. “Tenho um tio que fala que a gente aprende a soar inteligente no cafezinho.” A brincadeira vem da diversidade de disciplinas: de antropologia a arte e economia.

 

O ambiente das aulas parecia cenário de filme: aquecidos por uma lareira, os alunos se sentavam em poltronas de couro ao redor de mesões de madeira em uma cidade bucólica do Maine, onde nevava oito meses do ano.

 

Logo após a formatura, em 1997, Claudia recebeu duas propostas de emprego. Uma oferecia um salário mais baixo em um banco de investimentos em Nova York; outra oferecia um salário maior em uma consultoria em Washington. “Eu, que sempre fui tão independente, não queria começar a trabalhar pedindo dinheiro para os meus pais para pagar o aluguel”, diz. “A consultoria é perfeita para quem não sabe muito bem o que quer porque você trabalha em várias indústrias.”

 

Em vez de ficar alocada no escritório, Claudia olhava para fora. Se a Coca-Cola era o cliente, a recém-formada alugava um carro e saía perguntando o que lojistas de cidades do interior recebiam de incentivo da Pepsi. No segundo ano de trabalho, porém, o negócio das startups ganhou espaço. “Comecei a ouvir esse ‘zum, zum, zum’ e meu lado empreendedor queria se envolver de alguma forma.”

 

Ao lado de cinco sócios e sem sair da consultoria, Claudia fundou a HighWire, com a proposta de digitalizar a relação entre escolas e as famílias de alunos. “Mas a bolha da internet estourou um ano depois, em 2000”, lembra. “Até conseguimos vender o projeto por cinco mil dólares. Percebi que não queria mais consultoria. Queria mesmo empreender.”

 

De férias no Rio de Janeiro, a executiva reencontrou um amigo, que estava abrindo o portal iBest, cujo negócio era vender banners de anúncios e conexão de internet. “Vem para cá!”, ela ouviu. “Aqui a bolha ainda não estourou. Estamos um ano atrasados.” Claudia voltou para Washington, vendeu tudo – dos móveis aos talheres – e foi morar na casa da avó carioca.

 

Ao longo dos quatro anos em que ficou no iBest, ela fez o famoso “de tudo um pouco”. “Era o começo das ferramentas que hoje conhecemos da internet: CRM digital, e-mail marketing, e-commerce. Era um experimento”, conta. “Depois de quatro anos surfando essa onda, saí para fazer um mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.”

 

Dessa vez, o ambiente era muito diferente dos tempos bucólicos de faculdade. “No meu primeiro dia de aula em um prédio caindo aos pedaços na Ilha do Fundão, ao lado do Complexo da Maré, em uma turma com algumas pessoas que nunca tinham trabalhado, pensei: ‘o que eu estou fazendo aqui?’” Mas, como ela mesma diz, foi o melhor ano da vida. “Foi um momento de quebra de preconceito e de paradigmas porque minha turma era absolutamente brilhante”, diz. “Se você vai para a Columbia, que seria minha opção de MBA nos Estados Unidos, é um ambiente muito homogêneo. Já ali tinha de tudo: o cara da favela, o milionário, o de 60 anos e o de 20. Viramos grandes amigos.”

 

 “Meu segredo de gestão é ter doze grupos de WhatsApp”

 

Uma das tradições da UFRJ era participar do jogo de negócios promovido pela francesa L’Oréal. Naquele ano, 2005, foram 12 mil grupos inscritos de todo o mundo. “Apresentamos nossa ideia na sede da L’Oréal e ganhamos o primeiro lugar.” O jogo também era uma forma de recrutar talentos, por isso o resultado levou Claudia para um caminho que não imaginava para a carreira. “Se eu ia empreender do zero ou entrar em um ambiente empreendedor, eu ainda não sabia”, lembra.

 

“Mas estava claro que não queria uma empresa multinacional gigante.” O fato de a sede ser no Rio de Janeiro pesou na decisão de aceitar o cargo, assim como o momento de a L’Oréal estar
migrando para a internet. “Foi o começo de tudo. Eu era gerente sênior e não tinha internet na minha mesa”, lembra.

 

Um ano depois, Claudia pediu demissão. “Falei para a diretora de recursos humanos que não era um trabalho para mim”, diz. Retomando um antigo convite, a executiva foi para a Predicta, com um acordo de entrar para a sociedade seis meses depois. Na época, o negócio da empresa girava em torno de um software pago de analytics para sites. No seu primeiro dia como diretora de business intelligence, o Google anunciou a ferramenta gratuita de analytics. “Quase liguei de volta para a L’Oréal”, brinca. “Mas, no fim, foi muito bom porque viramos uma empresa mais de inteligência do que de tecnologia, ajudando agências e anunciantes.”

 

Quatro anos depois, a febre da vez eram os sites de compras coletivas. Claudia saiu da Predicta e assumiu como sócia e diretora de marketing do ClickOn, sendo responsável pela aquisição de clientes, métricas e estratégias de business intelligence. Tal modelo de consumo apareceu e desapareceu na mesma intensidade.

 

A executiva começou a ficar conhecida como “aquela que resolve missões impossíveis”. Mas o que veio a seguir exigia superpoderes. “Recebi o convite de um fundo de investimentos para ser CMO da NetMovies, empresa que estava tentando crescer antes de a Netflix chegar”, lembra. O serviço online de aluguel de DVD por assinatura mensal já existia há alguns anos.

 

Com o movimento de expansão da Netflix para outros países, o plano da NetMovies era aumentar a base de usuários da assinatura e, em paralelo, comprar o arquivo digital dos filmes. Tudo antes de o serviço de streaming estadunidense lançar a operação brasileira. “Mas eles chegaram um ano antes do previsto”, conta. “Foi um momento de deixar o ego derrotado de lado, refletir e pensar o que eu queria agora.”

 

O convite para assumir o cargo de CMO do Walmart.com veio na hora certa. Empresa estruturada, novas perspectivas à frente de um e-commerce de varejo e a possibilidade de voltar a equilibrar vida pessoal e profissional. Mas a aparente vida mansa só durou seis meses. A mesma pessoa que a indicou para a vaga no Walmart.com a chamou para integrar o time que estava montando o Banco Original.

 

“Eu disse que estava feliz e não queria ir, mas ouvi o seguinte argumento: ‘Quando foi a última vez que alguém lançou um banco no Brasil? Quantas vezes na vida você vai ser convidada a fazer isso?’” Fundado em 2011 pelo grupo J&F, dono da JBS, e com foco no agronegócio, o banco se preparava para abrir para o varejo de forma digital. “Nessa época, ninguém fazia aquisição de cliente bancário pela internet”, diz.

 

Até que uma crise na empresa e também no país, em 2017, trouxe um cenário desafiador para Claudia. “Foi duro. Nessa hora, meu estilo de gestão foi importante”, conta. “Tenho uma relação muito forte e transparente com os times. Conversávamos abertamente sobre os fatos e os riscos do que estava acontecendo, o que uniu ainda mais a equipe.” Claudia fez um pacto consigo mesma de que não abandonaria o barco. Quando finalmente sentiu que o ciclo chegara ao fim, ela conversou novamente com todos, como tinha prometido.

 

Algumas inspirações da executiva

 

  • Livro
    “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari
  • Cidade
    Nova York
  • Personalidade
    Esther Perel, psicoterapeuta e autora
  • Filme
    A Noviça Rebelde
  • Música
    Billy Joel

 

Antes de assumir o cargo atual de CEO da Webmotors, em maio de 2018, a executiva deu risada quando um amigo, ao saber que ela lideraria o portal de automóveis, disse que o movimento era arriscado. “Imaginando que eu não tinha avaliado direito, perguntei qual era o risco”, lembra. “Ele me falou da tendência da mobilidade urbana e do fato de ser uma empresa digital, com vários concorrentes. Para mim, era o contrário: uma empresa que existe há 23 anos, vivendo um momento de revolução. Olhei totalmente o copo meio cheio.”

 

Os números da empresa fundada no começo da internet no Brasil impressionam. Em 2017, a receita cresceu cerca de 40%. Além disso, 26 milhões de pessoas entram no site todos os meses para ver os 450 mil anúncios de carros. “Queremos ser uma empresa muito mais de soluções e de inteligência do que de classificados”, observa. Mas, de acordo com a executiva, ainda há espaço na área no Brasil. “Lidamos com extremos. Em pequenas cidades do interior, onde jornais locais não existem mais, a internet é muito importante para que os moradores possam anunciar seus carros. Já em São Paulo, cada vez mais se usa bicicleta, transporte público, etc. Esses mercados, de alguma forma, vão ter que andar juntos e teremos que encontrar um equilíbrio.”

 

No dia a dia, Claudia é adepta de diferentes modais: às vezes vai trabalhar de bike, mas também usa o carro. Recentemente, aprendeu a andar de skate com o lho. “Outro dia, olhei para o meu carro e em cima tinha uma bicicleta e uma prancha de stand up, e na mala, dois patinetes, dois patins e dois skates. Isso que é mobilidade”, brinca.

 

Se depender da vontade de Claudia e de suas poucas horas de sono, a Webmotors vai continuar crescendo. “Meu apelido é Ci, de ciborgue, porque vivo as três frentes da minha vida intensamente – a maternidade, a vida pessoal e a profissional”, brinca. “Acredito que se eu entrasse em uma rotina de trabalho-casa-televisão-dormir, iria enlouquecer!”

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