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BiografiaA virada de jogo de Alcione Belache, CEO da Renovigi Energia Solar

A virada de jogo de Alcione Belache, CEO da Renovigi Energia Solar

“Não somos concorrentes. Somos muito maiores. A Renovigi não é nada”, ouviu Alcione de um aparente rival na primeira vez em que participou de uma feira do setor de energia renovável. “A frase está engasgada até hoje”, comenta o CEO da Renovigi. “Mas uma hora o jogo vai virar.” Apontada pela Deloitte como a empresa de médio porte que mais cresceu no país em 2018, a fabricante de sistemas fotovoltaicos espera faturar R$ 1 bilhão em 2020. “Um dia vou falar para o cara: lembra que eu era pequeno, do tamanho de um botão? Agora não sou mais”, brinca Alcione.

TEXTO: Camila Balthazar / FOTO:

Depois de passar uma semana visitando as fábricas que produzem os sistemas fotovoltaicos da Renovigi, Alcione Belache deixou seu hotel em Xangai, na China, às nove horas da manhã de uma quinta-feira de abril. Voou até Frankfurt, na Alemanha, embarcou em outro avião rumo a São Paulo, passou pela imigração e aguardou a decolagem para Chapecó, no oeste catarinense. Ao entrar em casa e conferir o relógio, viu que ainda eram dez horas da manhã de sexta-feira. O fuso de onze horas o fez voltar no tempo.

 

Logo depois do almoço, ele já estava acomodado no escritório de sua casa para esta entrevista, que inspirou uma viagem ainda maior. O CEO de uma das maiores fabricantes de sistemas fotovoltaicos do Brasil voltou mais de quatro décadas no tempo. Ele relembrou seu passado de vendedor em uma feirinha hippie em Curitiba, quando produzia colares e pulseiras de palha, miçanga e arame, e sua aventura como DJ e técnico de som em festinhas de 15 anos.

 

“Eram hobbies, mas davam uma graninha”, lembra Alcione, que na época tinha pouco mais de 13 anos. “Meu sonho mesmo era ser cientista. Desde os 10 anos eu sabia que queria ser engenheiro eletrônico.” O ensino médio se misturou com o curso técnico em eletrônica, abrindo uma porta para ele trabalhar na Sid Informática, extinta fábrica de microcomputadores. “Foi a minha primeira grande escola”, diz. “Desenvolvi softwares e hardwares e fui um dos escolhidos para participar de um programa de transferência de tecnologia no Vale do Silício, nos Estados Unidos.”

 

Alcione passou toda a década de 1980 na Sid Informática, até perceber que seu diploma universitário de engenheiro industrial elétrico não o levaria a altos cargos gerenciais. “Na época, não se dava tanto valor para o lado engenheiro”, lembra. “Para ter salários melhores, eu precisava embrenhar para a gestão.” Quando ele recebeu uma proposta para assumir como gerente industrial da Nutron Telecomunicações, o pai não entendeu nada. “Está louco?”, questionou. “Faz 10 anos que você está na Sid e já te mandaram até para os Estados Unidos. Vai trocar por uma empresa menor?”

 

“Vou”, decidiu Alcione. Assim começou a segunda escola da sua carreira, que durou mais uma década. “Aprendi muito como gestor de fábrica. Saí de lá como diretor executivo e com o diploma de pós-graduação em administração.” Mas o lado cientista continuava desperto nas horas vagas. Ao assistir à notícia de uma morte em decorrência de um vazamento de botijão de gás em um jornal na televisão, uma faísca acendeu: e se ele desenvolvesse um sistema de alarme de vazamento de gás? O engenheiro tirou a ideia do papel, mas não conseguiu vender. “Não sei se o preço não era compatível ou se faltou experiência na precificação.”

 

Ele fez uma segunda tentativa como cientista. Desafiados por empresários da área de transporte interessados em investir em um sistema para rastreamento de frotas, Alcione e um colega desenvolveram software e hardware baseados em satélite de baixa órbita para gerenciar esse rastreamento. “De certo viram que éramos um bando de engenheiros meio malucos”, brinca. “Mas, de novo, não deu certo. Acabamos desistindo.”

 

A proposta para entrar no que considera a terceira grande escola da vida profissional veio de dois amigos fundadores da Bematech. O salário era o mesmo da Nutron Telecomunicações, e o cargo descia de diretor para gerente. “Aceitei porque percebi que eu acordava e não tinha mais paixão para trabalhar”, comenta. “Meu desafio na Bematech era montar um novo negócio dentro da empresa. Isso me motivou.” Dois anos depois e com um MBA em marketing no currículo, ele assumiu a direção de operações – e até hoje carrega o que aprendeu em atendimento, pós-venda e relacionamento com cliente.

 

Seu projeto de conclusão do MBA considerava a criação de uma empresa de soluções de automação para o pequeno varejo. Em 2006, após cinco anos na Bematech, Alcione, o irmão e um colega juntaram as economias e fundaram a Thrio, apostando na ideia do MBA. “O produto já tinha o conceito de nuvem, quando ainda nem se falava disso”, explica. “Estávamos no lugar errado, na hora errada. O dinheiro acabou e fomos atrás de investidores. Mas também estávamos na época errada. Hoje em dia é muito mais fácil buscar fundos de investimento.”

 Os investidores do vale do silício preferem apostar em quem já tentou várias vezes, em vez de investir em quem está tentando pela primeira vez. No brasil, tendem a ver um fracassado.

Um dos investidores contatados tinha acabado de comprar uma empresa e o convidou para trabalhar lá. Depois de cinco anos investindo na Thrio, Alcione abandonou o barco. “Eu tinha uma casa para sustentar”, lembra. “Doeu sair. A empresa era como um filho.” O fim da Thrio pode até ser visto como o terceiro fracasso da sua carreira empreendedora, mas também deixou aprendizados importantes.

 

“Um dado curioso é que investidores do Vale do Silício preferem apostar em quem já tentou várias vezes, em vez de investir em quem está tentando pela primeira vez”, diz. “No Brasil, a visão é diferente. Tendem a ver um fracassado.” Ninguém gosta de perder, mas Alcione detesta. Quando criança, se perdia no jogo de futebol de botões, tacava todas as peças na parede. “O segundo é o primeiro dos últimos”, diz o engenheiro, citando a frase do seu ídolo Ayrton Senna.

 

A vida ainda deu algumas voltas até o executivo assumir um bom lugar de largada. Ele concluiu o mestrado em administração, deu aula de planejamento estratégico em uma universidade de Curitiba, assumiu um cargo na direção do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) e prestou algumas consultorias. A inquietação continuava. Em uma das tantas viagens a Chapecó, cidade de origem da esposa, Alcione conheceu um empresário da região durante um evento. “Comentei que eu tinha interesse em morar em Chapecó”, lembra. Três meses depois, o novo amigo telefonou: “A ideia de vir para cá ainda está de pé?”.

 

O engenheiro viajou a noite de ônibus para ouvir a proposta. Um grupo de seis empreendedores estava com a ideia de montar uma empresa para atuar no ramo de energias renováveis, que viria a ser a Renovigi Energia Solar, e precisavam de um sócio que tocasse a operação como CEO. “Abri mão de um salário bom de mercado para vir para cá com um pró-labore irrisório”, diz Alcione. “Mas nunca pensei que fiz besteira, mesmo tendo tudo para desistir, porque o negócio não andava.”

 

A Renovigi começou a operar em agosto de 2012. No final de 2014, ainda era comum ver o próprio Alcione subindo nos telhados de casas residenciais para instalar os painéis solares. “Fizemos nossa festa de fim de ano, em 2014, em um bar e sobrou uma cadeira na mesa”, brinca o empresário, lembrando que apenas ele e mais dois funcionários se revezavam entre todas as funções. “Eu estava sendo engenheiro de novo, colocando a mão na massa”, diz. “Talvez por isso não tenha pensado em desistir em nenhum momento.”

 

O mercado de energia renovável começou a aquecer apenas no segundo semestre de 2015. “Quando a porteira finalmente abriu, estávamos prontos para passar”, lembra. “Já tínhamos estrutura, fornecedores e política comercial para os credenciados.” Se 2015 encerrou com R$ 5 milhões de faturamento, 2016 bateu em R$ 19 milhões. Em 2017, foram R$ 41 milhões e, em 2018, R$ 147 milhões. A previsão é de R$ 500 milhões para 2019 e, para 2020, eles esperam atingir o primeiro bilhão.

 

“Tenho muito orgulho dos nossos números”, diz o CEO. Quando a Renovigi faturou R$ 300 mil de uma única vez, todos fizeram um escarcéu, como Alcione mesmo diz. “Até hoje celebramos nossas conquistas.” “Quando batemos um recorde, a empresa inteira vai para o bar comemorar. Isso quebra qualquer tipo de hierarquia.” Para ele, os 70 funcionários – que agora já ocupam várias mesas – são colegas de trabalho. “O fato de eu ser acionista e CEO não muda nada”, garante. “Quem trabalha comigo não é funcionário ou colaborador. É colega de trabalho.”

 

O ambiente da empresa é descontraído, oferece inglês grátis para todos e atendimento com uma psicóloga organizacional três vezes por semana, para quem se interessar. “Sou transparente e tolerante na hora de tomar decisão. Nunca fui mandão. O verbo imperativo não se aplica ao meu dia a dia”, explica Alcione, fazendo questão de apresentar também seu lado de marido e pai de três filhos – um menino e duas meninas. “Mesmo na minha vida pessoal, sempre tive bom relacionamento. Sei dividir meu tempo e minha dedicação entre trabalho, família e amigos.”

 

Esse cuidado também vale para os clientes. A Renovigi oferece garantia de até 15 anos para os sistemas instalados e enfatiza essa cultura entre os mais de três mil credenciados que vendem seu sistema por todo o país. “Não deixo meu consumidor na mão”, diz. Certa vez, um cliente teve problema com o inversor, que é o “cérebro” do sistema solar. Alcione pagou a conta de energia elétrica desta pessoa até a nova peça chegar da importação. “Transmito essa cultura para os meus colegas de trabalho”, diz. “A palavra-chave do nosso sucesso é a nossa cultura.”

 

O empresário cita outros dois elementos importantes para construir essa história que faz valer cada um dos fracassos passados: foco e paixão. “Dizem que fico 24 horas conectado. Mas faço isso porque gosto muito do que faço.” Ao fim da entrevista, em vez de aproveitar o restinho da sexta-feira para descansar da viagem de 36 horas de volta da China, ele planejava aproveitar o fim da tarde na Renovigi. “Vou dar um pulo lá na empresa”, diz. “Quem sabe sai um happy hour?”


Inspirações
  • Livro
    “Satisfação Garantida”, de Tony Hsieh
  • Filme
    “Bohemian Rhapsody”, de Bryan Singer
  • Cidade
    Curitiba
  • Líder
    Steve Jobs
  • Banda
    Dire Straits

 

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